Como a memória traumática é tratada pelo Museu da Loucura
Ludmylla Bortolini Lana
Museologia/Museu no Mundo Contemporâneo
Universidade Federal de Ouro Preto
21 de janeiro de 2026
Os museus contemporâneos deixaram de ser compreendidos apenas como instituições de guarda e conservação de objetos, passando a ser reconhecidos como espaços de diálogo, participação social e construção plural de sentidos. No entanto, esse deslocamento conceitual não ocorre de forma automática e tampouco isenta de contradições. Como aponta Marta Anico, os museus e sítios patrimoniais não apenas conservam vestígios do passado, mas os apresentam ao público, muitas vezes simulando contextos históricos “numa evocação nostálgica de um passado saneado, redimido de quaisquer vestígios de conflito, ficcionado e oferecido ao público como verdadeiro e autêntico” (ANICO, 2005, p. 75).
À luz dessa reflexão, o Museu da Loucura apresenta tensionamentos significativos no que diz respeito ao fortalecimento da memória coletiva. Ao lidar com a história de um grupo social marginalizado, submetido a práticas de violência e tortura institucional, o museu corre o risco de transformar uma memória profundamente traumática em um gabinete de curiosidades destinado ao consumo do público. Esse tipo de abordagem não apenas esvazia a complexidade histórica da experiência vivida pelos internos, como também reproduz processos de desumanização semelhantes àqueles praticados durante o funcionamento da instituição psiquiátrica.
Em vez de promover uma reminiscência crítica do passado capaz de evidenciar o que ocorreu e, sobretudo, o que não deve ser repetido, observa-se um apagamento simbólico dessa memória. O sofrimento é exposto de forma descontextualizada, sem mediação adequada ou incentivo ao diálogo, fazendo com que o museu se apoie mais na espetacularização da dor do que na construção de uma narrativa ética e educativa. Nesse sentido, confirma-se o alerta de Anico sobre o perigo de apresentar o passado como algo ficcionado e neutralizado de conflitos, ainda que marcado por violência extrema.
O Museu da Loucura acaba por não se consolidar plenamente como um espaço de diálogo e reflexão sobre a memória traumática da saúde mental no Brasil. Para que cumpra efetivamente sua função social, torna-se necessária uma reformulação da expografia, capaz de promover informação, escuta e debate. Somente por meio de uma abordagem consciente e humanizada será possível acessar essa memória de maneira coerente, reconhecendo a dignidade dos sujeitos que por ali passaram e reafirmando o papel do museu como agente de construção de uma memória social crítica, e não de sua negação.








