a tradição das visitas técnicas

No inverno de julho de 1945, quando as moças e senhoras costumavam usar chapéus em roupas de passeio e os homens trajavam ternos à rua, a turma do Curso de Museus do Museu Histórico Nacional/RJ excursionava para a cidade de Ouro Preto em Minas Gerais. O grupo de 19 pessoas veio de trem numa viagem que durou 16 horas. Durante a permanência de uma semana visitaram também as cidades de Mariana, Congonhas do Campo e o então arraial de Ouro Branco.

Passados 68 anos, o Curso de Museologia da UFOP mantém a tradição das visitas técnicas iniciada pelo Curso de Museus. Todo semestre o DEMUL se reúne para discutir e aprovar os roteiros de viagens das disciplinas que possuem visitas previstas em suas ementas. Em geral, os estudantes organizam a hospedagem, na busca de conforto, higiene, bom preço e localização. Os professores, claro, responsabilizam-se pela elaboração dos roteiros detalhados, agendamentos, relatórios posteriores, avaliações e ainda por todo o aspecto operacional de deslocamento.

Em meio à transitoriedade do mundo contemporâneo as visitas técnicas permanecem uma boa tradição que nos orgulhamos em manter devido à sua importância como recurso pedagógico.

Este blog cumpre, pois o objetivo final de avaliar os estudantes em suas visitas aos museus. Suas postagens são registros, narrativas e leituras da experiência vivida, um diário coletivo, dinâmico, crítico, quiçá, divertido.

Tenham todos uma boa leitura e uma boa viagem!

Prof.ª Ana Audebert


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Esquecimento da Saúde mental

 Como a memória traumática é tratada pelo Museu da Loucura

Ludmylla Bortolini Lana

Museologia/Museu no Mundo Contemporâneo

Universidade Federal de Ouro Preto

21 de janeiro de 2026



 Os museus contemporâneos deixaram de ser compreendidos apenas como instituições de guarda e conservação de objetos, passando a ser reconhecidos como espaços de diálogo, participação social e construção plural de sentidos. No entanto, esse deslocamento conceitual não ocorre de forma automática e tampouco isenta de contradições. Como aponta Marta Anico, os museus e sítios patrimoniais não apenas conservam vestígios do passado, mas os apresentam ao público, muitas vezes simulando contextos históricos “numa evocação nostálgica de um passado saneado, redimido de quaisquer vestígios de conflito, ficcionado e oferecido ao público como verdadeiro e autêntico” (ANICO, 2005, p. 75).

      À luz dessa reflexão, o Museu da Loucura apresenta tensionamentos significativos no que diz respeito ao fortalecimento da memória coletiva. Ao lidar com a história de um grupo social marginalizado, submetido a práticas de violência e tortura institucional, o museu corre o risco de transformar uma memória profundamente traumática em um gabinete de curiosidades destinado ao consumo do público. Esse tipo de abordagem não apenas esvazia a complexidade histórica da experiência vivida pelos internos, como também reproduz processos de desumanização semelhantes àqueles praticados durante o funcionamento da instituição psiquiátrica. 

Em vez de promover uma reminiscência crítica do passado capaz de evidenciar o que ocorreu e, sobretudo, o que não deve ser repetido, observa-se um apagamento simbólico dessa memória. O sofrimento é exposto de forma descontextualizada, sem mediação adequada ou incentivo ao diálogo, fazendo com que o museu se apoie mais na espetacularização da dor do que na construção de uma narrativa ética e educativa. Nesse sentido, confirma-se o alerta de Anico sobre o perigo de apresentar o passado como algo ficcionado e neutralizado de conflitos, ainda que marcado por violência extrema.

      O Museu da Loucura acaba por não se consolidar plenamente como um espaço de diálogo e reflexão sobre a memória traumática da saúde mental no Brasil. Para que cumpra efetivamente sua função social, torna-se necessária uma reformulação da expografia, capaz de promover informação, escuta e debate. Somente por meio de uma abordagem consciente e humanizada será possível acessar essa memória de maneira coerente, reconhecendo a dignidade dos sujeitos que por ali passaram e reafirmando o papel do museu como agente de construção de uma memória social crítica, e não de sua negação.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Visita Técnica ao Museu Imperial de Petrópolis. Os registros permanecessem em minha memória

      A visita técnica começou na sala de conservação dos acervos. Lá, a turma foi recebida por duas profissionais museólogas, que compartilharam um pouco de suas histórias ao longo da graduação e da formação profissional. Em meio ao discurso sobre os exercícios da profissão na prática, ouvimos relatos sobre as dificuldades e os desafios enfrentados na conservação dos acervos no museu.

     No entanto, o que mais me chamou a atenção foi o fato  de serem duas mulheres museólogas ocupando, de fato, o cargo de museólogo. É até engraçado dizer que isso me marcou mais do que as vestimentas de Dom Pedro II quando criança. Visto que o cenário da profissão de museólogo no Brasil não é favorável, pois infelizmente há muita desvalorização na área e, muitas vezes, as instituições museológicas têm seus cargos ocupados por profissionais de outras áreas.

     Essa realidade me fez refletir sobre a situação do nosso futuro enquanto museólogos em formação, mostrando que ainda há um caminho árduo a ser percorrido. Por outro lado, a visita ao espaço expositivo, realizada com pantufas nos pés, foi uma experiência muito satisfatória. Conhecer aquele espaço tão bonito e prestigiar a Coroa de Dom Pedro II, é impressionante. Gostaria de ter registrado alguns objetos ao longo da visita, porém o museu proíbe fotografias.  

    Apesar disso, essa proibição não foi algo negativo, pois me fez mergulhar ainda mais na história do museu. Mesmo sabendo que a intenção da restrição é garantir a segurança do acervo, minha experiência tornou-se mais imersiva por não utilizar o celular durante a visita, fazendo com que os registros permanecessem em minha memória.




A Linha Tênue entre a Disneyficação e a Preservação da Memória

            Durante a visita técnica ao Museu Imperial, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, pudemos observar a gloriosidade da vida da família imperial: os mobiliários incrivelmente trabalhados, o ouro, a prataria, os lustres exuberantes e as vestimentas detalhadas. Mas aí surge o questionamento: seria essa uma glorificação exagerada da vida dos colonizadores europeus ou apenas a preservação da memória?

            Particularmente, esse foi um questionamento que me acompanhou durante toda a visita. Fiquei dividida entre admirar a beleza do local e criticar a “disneyficação” — termo popularizado por Alan Bryman — criada em espaços desse tipo. Uma das funcionárias do local relatou que, quando a coroa de D. Pedro foi retirada por alguns dias para manutenção, muitos visitantes reclamaram, afirmando que haviam ido ao museu “apenas para ver a coroa”. Seria essa uma fetichização construída em torno de artefatos coloniais ou apenas a curiosidade de pessoas que não estão acostumadas a ver objetos desse tipo?

               Como estudante de museologia, em muitas visitas técnicas observamos isso nos museus dessa categoria. É como se eles fossem movidos pela idealização criada em volta dos europeus dos séculos XVIII e XIX. Como se de alguma forma eles estivessem acima de nós, e suas vidas tidas como ideais, ou metas a serem atingidas. Será isso fruto do capitalismo e a luta pelo dinheiro?

                

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Anico e o filme analógico.

 O artigo de Marta Anico, ao discutir a pós-modernização da cultura e a transformação dos museus em espaços de representação identitária e consumo cultural, oferece uma moldura teórica pertinente para analisar o Museu Imperial de Petrópolis. Anico destaca como os museus contemporâneos transcendem sua função tradicional de preservação aurática e erudita, tornando-se territórios de negociação de memórias e identidades, frequentemente marcados por dinâmicas de "glocalização" e pela mercantilização da experiência cultural. O Museu Imperial, situado no antigo Palácio de Verão de D. Pedro II, exemplifica essa tensão: de um lado, encarna a narrativa histórica centralizada e nacionalista típica da modernidade, baseada na autenticidade material dos objetos e na monumentalidade do edifício; de outro, é constantemente reinterpretado por públicos diversos que buscam, no passado imperial, tanto uma conexão com a história nacional quanto uma experiência turística e sensorial, alinhando-se assim às lógicas de espetacularização e acessibilidade discutidas pela autora.

Nesse contexto, a prática da fotografia analógica, como a realizada durante a visita técnica, adquire um significado simbólico profundo, atuando como um contraponto material e temporal à aceleração e fluidez características da pós-modernidade. Enquanto Anico problematiza a "simulação" e a "desterritorialização" dos bens culturais, a fotografia analógica reafirma uma materialidade tangível e um processo deliberado de registro, que exige pausa, seleção e espera — operando, assim, como um ritual de contra‑tempo. O ato de fotografar com película no Museu Imperial não é apenas uma documentação, mas uma performance de apropriação pessoal da história, na qual o visitante assume o papel de agente interpretativo, criando uma narrativa visual filtrada por sua subjetividade e pelo medium escolhido.

Por fim, a relação entre memória e fotografia analógica ressoa com a reflexão de Anico sobre os "lugares de memória" e a nostalgia como resposta à fragmentação pós-moderna. A imagem analógica, com sua granularidade, limitações técnicas e processo químico, evoca uma aura de autenticidade e durabuldade que contrasta com a efemeridade das imagens digitais. Ao registrar o Museu Imperial dessa forma, o fotógrafo não apenas congela um instante, mas inscreve sua experiência em um suporte que carrega em si a memória do medium — uma metáfora da própria patrimonialização. Assim, a fotografia analógica torna-se ela mesma um artefato de memória, um testemunho material que, ao dialogar com o acervo musealizado, reforça a ideia de que o passado é continuamente reconfigurado no presente através de práticas culturais híbridas, onde o tradicional e o contemporâneo, o material e o simbólico, coexistem em constante negociação.











TRABALHANDO O REAL ENQUANTO ESPERAMOS O IDEAL: analisando a conservação do museu imperial


No dia 05 de dezembro de 2025, juntamente com a turma de Museologia da UFOP, estive em visita técnica ao Museu Imperial, na cidade de Petrópolis. Na ocasião, tive também a oportunidade de conhecer suas reservas técnicas e bibliotecas.

Entre mares de armários, mapotecas e gavetas, participamos de uma rica conversa sobre conservação, acondicionamento e documentação. Dentro desse diálogo, algo dito chamou especialmente minha atenção. Ainda sob a sombra do recente roubo ocorrido no Museu do Louvre, as museólogas do Museu Imperial nos relataram os reflexos desse acontecimento na instituição. Muitos jornalistas procuraram o museu em busca de informações sobre a dinâmica de segurança do local, considerando que a instituição abriga as joias do extinto Império do Brasil. Evidentemente, elas não puderam detalhar o esquema de segurança; contudo, por coincidência, a joia mais emblemática em exposição, a coroa imperial, havia sido retirada por um curto período para trabalhos de manutenção, o que acabou gerando questionamentos sobre a segurança do museu.

Ainda na reserva técnica, pude observar as diferentes formas de guarda do acervo, e dois aspectos chamaram minha atenção. O primeiro é que o museu não trabalha com aquilo que, em teoria, consideraríamos ideal para a conservação, mas sim com os recursos de que dispõe. Essa realidade é comum a muitas instituições museais no país, embora, cause certo estranhamento perceber que ela também se impõe a museus de grande porte. Localizado em uma cidade serrana, o Museu Imperial não possui sistema de climatização em suas reservas técnicas, algo perceptível pela diferença de temperatura entre os ambientes. Diante disso, é utilizada a chamada ventilação mecânica, que, para o público leigo, pode ser traduzida naquela frase clássica que provavelmente todos já ouvimos: “abre essa janela para deixar o ar correr”. Outro ponto que chamou minha atenção é que, a instituição serve de local de guarda para objetos que ainda pertecem aos decendentes do império, são alguns objetos mantindos separadamente pois apesar de estarem no espaço do museu, não pertencem a ele.

Em termos técnicos, a ausência de climatização representa, de fato, um problema, especialmente para acervos mais sensíveis. No entanto, curiosamente, os próprios acervos possuem certa capacidade de adaptação ao clima ao longo do tempo. Isso não significa que sua vida útil seja preservada da mesma forma que seria com o uso de ar-condicionado ou desumidificadores, mas evidencia a necessidade de pensar a conservação a partir da realidade concreta das instituições.

Outro ponto que me causou estranhamento inicial foi a utilização de armários de madeira nas reservas técnicas. Esses mobiliários são, em geral, desaconselhados, pois a madeira é propensa à proliferação de xilófagos e pode representar riscos ao acervo. Entretanto, quando bem conservados e sem contato direto com os objetos, especialmente os mais sensíveis, podem se tornar uma alternativa viável diante da escassez de recursos e de espaço. Foi exatamente esse o caminho adotado pelo Museu Imperial. 

Já no espaço expositivo, o que mais me chamou atenção foi a proibição de fotografias. A equipe explicou que a medida visa evitar o congestionamento de público nas salas expositivas. Contudo, particularmente, fiquei refletindo que essa decisão também pode estar relacionada à segurança do acervo e até mesmo ao estímulo para que o público retorne ao museu, já que muitos outros museus com grande fluxo de visitantes permitem registros fotográficos.

Para além das análises técnicas, é impossível não destacar a beleza do local e o excelente estado de conservação tanto do edifício quanto do acervo. Trata-se de um espaço que, sem dúvida, merece ser revisitado.