a tradição das visitas técnicas

No inverno de julho de 1945, quando as moças e senhoras costumavam usar chapéus em roupas de passeio e os homens trajavam ternos à rua, a turma do Curso de Museus do Museu Histórico Nacional/RJ excursionava para a cidade de Ouro Preto em Minas Gerais. O grupo de 19 pessoas veio de trem numa viagem que durou 16 horas. Durante a permanência de uma semana visitaram também as cidades de Mariana, Congonhas do Campo e o então arraial de Ouro Branco.

Passados 68 anos, o Curso de Museologia da UFOP mantém a tradição das visitas técnicas iniciada pelo Curso de Museus. Todo semestre o DEMUL se reúne para discutir e aprovar os roteiros de viagens das disciplinas que possuem visitas previstas em suas ementas. Em geral, os estudantes organizam a hospedagem, na busca de conforto, higiene, bom preço e localização. Os professores, claro, responsabilizam-se pela elaboração dos roteiros detalhados, agendamentos, relatórios posteriores, avaliações e ainda por todo o aspecto operacional de deslocamento.

Em meio à transitoriedade do mundo contemporâneo as visitas técnicas permanecem uma boa tradição que nos orgulhamos em manter devido à sua importância como recurso pedagógico.

Este blog cumpre, pois o objetivo final de avaliar os estudantes em suas visitas aos museus. Suas postagens são registros, narrativas e leituras da experiência vivida, um diário coletivo, dinâmico, crítico, quiçá, divertido.

Tenham todos uma boa leitura e uma boa viagem!

Prof.ª Ana Audebert


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A árvore plantada em frente a capela, que antes era um local de reunião das mulheres da comunidade para rezar o terço, representa o símbolo da resistência das mesmas. Elas foram apoiadas pelo Padre José Muniz que foi o primeiro responsável pela paróquia Santa Lúcia, um homem que tinha visão social e sensibilidade a causa na década de 60. Lutando ao lado daquelas mulheres pobres e negras que só queriam um local para suas reuniões semanais, em que haviam rezas e também troca de experiências. Cada uma com sua particularidade, mas sempre empenhadas na ajuda ao próximo. O porte da árvore, densa em folhas e raízes, foi crescendo ao longo do tempo, bem como o envolvimento da comunidade, se tornando um marco, limitando onde termina os bairros de classe média e se inicia a favela.
A união destas 14 mulheres, que em períodos diferentes lutaram em prol desta causa, nos demonstra o sentimento de pertencimento dessa comunidade composta por um povo 90% negro, que através de seu conhecimento e técnica, construíram a cidade de Belo Horizonte, transformando o Curral Del Rey em uma cidade próspera e desenvolvida. Toda essa manifestação vai na contramão do projeto “embranquecedor” da igreja para a cidade na década de 20, incluindo até a proibição do Congado no interior e no entorno as igrejas.
Da vontade de preservação de um “barracão”, que para elas era um refúgio, e também uma vitória, de um povo excluído pela sociedade e principalmente pela igreja católica, veio a iniciativa de Padre Muniz em comprar este imóvel para elas, provendo a segurança de dar a elas “um teto”. Apesar desta atitude, eles nunca souberam que eram donas da propriedade, e tiveram que lutar novamente contra a vontade da igreja de vender o “barraco”, saindo vitoriosas no que se refere a sua permanência no local, criando ainda o museu com enfoque na cultura negra e Quilombos. Como bem diz Padre Mauro, que chegou como pároco da comunidade em 2000, e auxiliou no processo de criação do Muquifu, tudo partiu delas, desde a iniciativa até a disposição e aquisição do acervo, que conta com objetos ligados a pessoas da comunidade, como cacimbas, utensílios de cozinha, lamparinas e também no que refere a cultura dos mesmos, indumentárias de congado, fotos e jornais que retratam a vivência daquele povo. Neste acervo conta ainda, o quarto de empregada, que transporta o visitante a angústia e solidão vividas por elas em uma época não muito distante.
A capela do Muquifu e dedicada a Maria Estrela da Manhã, e há várias pinturas que representam as 7 dores e as 7 alegrias de Maria. Algo curioso sobre tal, e que não são pintados personagens brancos como a Igreja Católica acostumou a todos imaginarem, e sim negros e cada um deles com uma representação de um morador que fora e e importante para a capela e comunidade.
As 7 dores de Maria, nas quais são recordadas na quaresma, demonstra o sofrimento de Maria por seu filho Jesus.
1 - A profecia de Simeão sobre Jesus
Essa dor, na pintura e representada por Dona Santa (Argentina) na qual ela é mostrada como Nossa Senhora das Dores.
2 - A fuga da Sagrada Família para o Egito
Essa dor, tem como representantes negros de Maria e José, os moradores Cristiane e Renato.
3 - O desaparecimento do Menino Jesus durante três dias
Essa dor e representada pela moradora Maria Rodrigues.
4 - O encontro de Maria e Jesus a caminho do Calvário
Essa dor é representada por Dona Sonia como Nossa Senhora da Consolação.
5 - Maria assiste ao sofrimento e morte de Jesus na Cruz
Essa dor é representada por várias mulheres negras da comunidade que tiveram seus filhos mortos que também estão presentes da sexta dor
6 - Maria recebe o corpo do filho tirado da Cruz
7 - Maria observa o corpo do filho a ser depositado no Santo Sepulcro
Essa dor, tem por representantes o Pe. Jose Muniz, como José de Arimatéia e Marilda como Maria.
           As 7 alegrias de Maria, comemoradas na Páscoa, também tem pinturas com representantes da comunidade.
1 – O contentamento na anunciação
Essa alegria é representada por Maria da Conceição, onde está vestida de congadeira.
2 – A alegria do encontro com Isabel
Essa alegria tem por representante Dona Generosa.
3 – O nascimento de Jesus
Essa alegria tem como representante Tia Neném.
4 – A Adoração dos Reis Magos
Representada por Mãe de Santo em uma caminhada pela paz.
5 – Maria vê a Jesus Ressuscitado
Nao fora encontrado um representante para tal alegria.
6 – A alegria de Pentecostes
Essa alegria é representada por 15 mulheres recebendo o Espírito Santo, dentre elas, dona Mariana que se encontra sem o véu, e Padre Mauro também está na pintura.
7– A Assunção de Maria e sua Coroação no Céu
Essa alegria é representada por Dona Martinha, como Rainha do congado.
Para finalizar, há uma pintura em que mostra a favela subir aos céus.







quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Papinho para museólogo (não) dormir



Texto e imagens por: Jackson Santos, Maíla Ambrósio e Pedro Porto;

(Relatória de visita técnica realizada pela disciplina "Museus no Mundo Contemporâneo" feita sob a orientação da professora Dra.Ana Audebert no ano de 2018.)


    Nossa conversa começa como um papinho para museólogo (não) dormir, perguntando: Qual a função dos museus na contemporaneidade? Os espertinhos dirão: Ah, esta é uma pergunta capciosa e, certamente não será respondida prontamente de supetão. Aliás, uma reflexão um pouco mais aprofundada pode desembaralhar frente nossa face inúmeros possíveis motivos de sobrevivência destas instituições de cultura no cotidiano atual. Os museus se esgotam numa única função? Frutos de uma herança que corroborou com a edificação das identidades nacionalistas, com a construção de uma história da arte e das evoluções científicas, o cerne destas instituições é posto à prova por volta da metade do século XX juntamente com outras áreas das ciências humanas e sociais que foram palco de uma grande virada de paradigmas.

    Isso porque o mundo, a partir dos anos 60 do século XX, foi balançado por lutas sociais em várias frentes: a luta das mulheres por equidade política, movimentos negros que intencionavam a garantia de seus direitos, movimentos estudantis, a descolonização da África e Ásia. Neste mesmo período a América Latina assistiu a instauração de diversas ditaduras. Os campos de pesquisas em ciências humanas e sociais, incluindo aí a Museologia, transformaram-se em ferramentas de resistência e transformação da sociedade. Assim como foram o palco onde se investigou o que é próprio do ser humano, pensando-o enquanto um sujeito-cidadão.

   A Mesa Redonda de Santiago do Chile, ocorrida em 1972, foi um encontro de profissionais de museus que, atentos às transformações em curso, a partir dos já citados anos 60, se reuniram com o propósito de repensar o lugar dos museus frente a esta grande movimentação social. O país latino-americano não foi escolhido aleatoriamente para sediar a reunião, neste momento a museologia percebia-se dominada por epistemologias europeias, algo que deixava de fora um público com necessidades culturais outras, como as sociedades latino-americanas, inseridas em contextos culturais, políticos e sociais próprios, por exemplo. Nesta ocasião duas noções inovadoras, a respeito da museologia surgiram: o museu integral, preocupado com a totalidade dos problemas da sociedade e, o museu ação, como instrumento dinâmico de mudança social. A museóloga Waldisa Rússio Guarnieri, desenvolvia no Brasil, também na década de 70 sua leitura de musealidade: denominado por ela fato social, este fenômeno seria um tipo de relação específica do homem com sua realidade. A tradicional estrutura Museu-Acervo-Público pode (e deve) deslocar-se à Território-Patrimônio-Comunidade.

   Daí, compartilhamos agora nossa vivência de uma tarde no MUQUIFU: De chegada, ao desembarcar do ônibus que nos conduziu de Ouro Preto à Belo Horizonte, checamos o endereço: Rua Santo Antônio do Monte, 708 - Vila Estrela. Nós, alunos de Museologia da UFOP, acostumados a visitar museus, não reconhecemos qual, dentre aquelas construções poderia ser o MUQUIFU, o Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos. Havia então uma árvore (na verdade duas, entrelaçadas) com uns 20 metros de altura. Padre Mauro Luiz da Silva, hoje um dos curadores do museu, chegou no Aglomerado Santa Lúcia, macroterritório de favela que envolve a Vila Estrela, e lá encontrou um grupo de mulheres que se reuniam para orar num ambiente que é um barracão, é uma cozinha e é uma igreja, enquanto tomavam chá preparado por Dona Jovem. Aos pés deste ambiente está plantada a árvore (na verdade duas, entrelaçadas) com uns 20 metros de altura.

    A casa é uma igreja, a sede do museu, lugar de encontros e comunhões. Porém o museu é muito mais do que isso. Padre Mauro nos conta que origem desta história se dá no inter relacionamento de 14 mulheres, que se deu no tempo e no espaço posto que essas 14 mulheres nunca estiveram todas juntas, ao mesmo tempo mas, suas vidas encontraram-se ligadas por algum fio condutor. O museu fala destas conexões, destes fios entrelaçados, fala de caminhos percorridos. Quase sempre caminhos que levam para às margens, às periferias, no sentido de que as pessoas que lá vivem são descendentes de pessoas que chegaram lá pela transformação do espaço físico, político e social que se deu com a criação da cidade de Belo Horizonte. 

   O interior do museu impressiona, visto que, a primeira parte trata-se do interior da igreja a qual essas 14 mulheres lutaram para ter esse espaço. Nas paredes da igreja se encontra pinturas, na realidade, cenas bíblicas onde as personagens são as 14 mulheres, uma mistura de sagrado e profano sem deixar de lado a presença e a cultura negra já que as cenas se passam em meio a favela e faz menção a festa do congado. A narrativa segue história cristã tradicional onde destacam-se a anunciação com Tia Ia sendo representada (a mais velha do grupo), Dona Generosa, Tia Neném que fez o grupo nascer e é representada como Maria no presépio, Ereniciana, Dona Santa, Dona Jovem (a responsável pelo chá), Maria Rodriguez, Josimeire (a primeira doutora da vila) sendo representada entre os doutores do Templo de Jerusalém, Sônia, Marilda e terminando com Dona Marta rainha do congado sendo representada a cima do altar na cena da assunção de Maria.

                           

    

 

   Partindo da formação da Vila, o museu evoca histórias de uma comunidade com características inerentes: a apropriação e o aproveitamento do espaço; a malha de caminhos, ruas, becos e vielas num desenho estreito, tortuoso, por vezes labiríntico; o desenho do vale, enquanto um acidente topográfico absolutamente respeitado pela ação humana; o estilo de construção das casas; a proximidade entre as casas; o tempo, próprio das pessoas e do lugar; os olhares e os andares, os saberes. Mas, também evoca problemas enfrentados pela comunidade como a negligência social, por parte do Estado, violências e o preconceito. 

   Neste diálogo, da comunidade com ela mesma, proposto pelo museu visto como um lugar de problematização da vida, tanto quanto de celebração da mesma, o MUQUIFU germinou, brotou, cresceu, floresceu. 

   Entre algumas peças que compõem o acervo do MUQUIFU existe uma lâmpada, um tipo de candeia, de brinquedo, vermelha. Pertencia a dois irmãos que moravam por aquelas bandas e que, por um malarranjado do destino tiveram seus caminhos separados, perdendo o contato que mantinham um com o outro. O objeto foi doado ao museu por um destes irmãos. Imagina-se que o motivo da doação da peça foi para que a história desses irmãos fosse narrada, como parte integrante da história de toda a Vila Estrela, não é? Não, não é. Um irmão espera, através da doação do objeto, que um dia o outro possa (re)descobrir o brinquedo, exposto no museu, gravado em um desses vídeos compartilhados pela internet, ou mesmo numa visita ao MUQUIFU. Rememorá-lo. Através do objeto persevera o irmão, ambos reencontrar-se-ão. Então repito-lhes a pergunta: Qual a função dos museus na contemporaneidade?


       


                                                      









MUQUIFU - observações por Jemima Rodrigues e Katty Tavares




                        Localizado na Vila Estrela, no bairro Santo Antônio em Belo Horizonte, o Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (MUQUIFU) configura um museu de território, onde a comunidade local insere sua identidade no seu espaço físico e nas ações desenvolvidas pelo mesmo. Toda sua composição, seu acervo e suas atividades expressam a força daqueles que o deram origem e de cada um que o mantém enquanto espaço de resistência, de representatividade. É assim, o conjunto das muitas faces e memórias de sua comunidade, num sentido mais sensível de sua humanidade.

“O museu normal, qualquer que seja sua definição, é feito com as coisas, o museu comunitário é feito com as pessoas. O patrimônio comunitário é o patrimônio do pai de família, não é o tesouro de Harpagon”. (VARINE, 2005).

VARINE, Hugues de. O museu comunitário é herético. p. 12-15, 2005. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/306497369/O-Museu-Comunitario-e-Heretico-Hugues-de-Varine

Acompanhe o MUQUIFU pelas redes:

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

 Por
Laura Costa Pinheiro
Maria Angélica Mais
Isabela Montalto

“Um museu diferente”, com certeza essa expressão é uma das mais ouvidos quando se trata de definir o MUQUIFU : Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos. Padre Mauro, diretor do museu, já foi pároco da comunidade do Aglomerado Santa Lúcia e da capela na qual está localizado o museu; e nos conta sobre toda a trajetória do museu até o momento atual. Essa narrativa se funde e ramifica com a história do surgimento do aglomerado Santa Lúcia, anteriormente batizado pelos próprios moradores como ‘’ Vila Estrela’’; histórias de vida de diversas famílias; e, do surgimento da região periférica e modernização urbana que ocorreram em Belo Horizonte.

    Algumas da mais notáveis peculiaridades do MUQUIFU são referentes à sua sede. O museu se encontra dentro da área periférica de Belo Horizonte, entre moradias de luxo e o dito ‘’Morro do Papagaio’’, no aglomerado Santa Lúcia, uma área considerada com considerável índice de violência na cidade. Ainda podemos apontar o fato de que o acesso para entrada no museu é a partir da entrada da Igreja da comunidade. Essa mesma igreja apresenta uma configuração particular, à frente nos deparamos com uma árvore centenária,imponente e significativa, é mistura entre Ficus e Gameleira; As paredes da entrada e o muro são grafitados e a parte interna de toda a capela, exceto pelo altar, são pinturas que ilustram a história da comunidade e homenageiam personalidades que se envolveram diretamente com a história da igreja e da comunidade. Dentro da capela, existe uma cozinha, um quartinho, e a entrada para o espaço do MUQUIFU.


    As pinturas  que cobrem as paredes da capela são um registro  da história do Aglomerado Santa Lúcia, de pessoas que influenciaram, em diferentes momentos, na construção do espaço para o culto religioso, na conquista do território do morro, quando ainda era desocupado; nas atividades culturais e em busca da paz na comunidade. Cenas das 7 dores e 7 alegrias de Maria, tem sido pintadas ao longo dos últimos 3 anos, homenageando e registrando as dinâmicas desse espaço.
     Padre Mauro conta como surgiu a igreja, dos desafios enfrentados por 14 mulheres da comunidade que lutaram para ter seu espaço de devoção, suas histórias e como cada uma está representada e incorporada às cenas bíblicas. Histórias de dores e alegrias bem como a de Nossa Senhora. É fascinante observar as paredes onde estão retratadas como uma miscelânea, o bíblico, sagrado, e a história viva da comunidade.

Transitar pelo espaço religioso para se chegar até o museu em si, desperta a sensibilidade, para que se compreenda a proposta do próprio museu, para que se dê e receba sentido  durante a visitação. A intenção é exatamente de se contar a história do Muquifu a partir das pessoas e do espaço que o conceberam, desde o início. O museu conta com um acervo interessante, grande parte doados pelos próprios moradores da comunidade, alguns, como os objetos de cunho religioso e ritualístico. É necessário salientar que o aspecto expositivo se diferencia do “museu tradicional”, as paredes são de tijolos, sem reboco, a iluminação é simples, e tudo isso complementa a própria proposta do museu, o acervo e as histórias. Podemos citar como exemplo do tipo de abordagem do museu, que condiz com o contexto social e geográfico no qual o MUQUIFU se encontra a exposição que discute sobre a relação entre as empregadas domésticas, os patrões, e o fato de os quartos destinados às ‘’serviçais’’  serem o tipo atual de senzala. Na referida exposição, está disposto um pequeno quarto, representando o espaço destinado às empregadas domésticas nas casas, suas paredes estão repletas de relatos de mulheres e filhos dessas mulheres que viveram em quartinhos como aquele. Os visitantes e os moradores da comunidade se identificam, comovem e dialogam com uma temática totalmente pertinente à realidade da comunidade.

A partir da experiência de visitar o MUQUIFU, dialogando com o padre Mauro e o artista plástico Claiton -responsável pela pintura da capela, compreender e se encantar pelos museus comunitários torna-se uma tarefa fácil e gratificante. Afirmamos com segurança, pois, no ambiente do MUQUIFU se reconhece a participação e a identidade da comunidade em todos os momentos de constituição e manutenção desse espaço. Seja nos momentos e rostos pintados nas paredes, seja no acervo emprestado, nas oficinas, nos eventos promovidos pela instituição e principalmente no envolvimento político, social e afetivo que  aproxima e reforça a identidade da comunidade com o território e com o museu em si (estrutura e discurso). O MUQUIFU é mais que um museu comunitário e ou de território; antes e acima de tudo, ele se tornou um espaço de resistência e guarda de memória.
A dinâmica urbana que surgiu com o êxodo rural e a modernização da nova capital de Minas Gerais, há tanto tempo atrás, tem reflexos e persiste até hoje. A comunidade de Santa Lúcia, antiga Vila Estrela, sempre foi um espaço de resistência. Ali se afixou uma comunidade que ainda resiste e o MUQUIFU é um  exemplo desse movimento, de dificuldades com certeza, mas principalmente de conquistas. Por isso, atualmente, ele não somente resiste, como resgata e guarda sua memória.

A experiência do Museu de Quilombos e Favelas Urbanos, ilustra muito bem as dificuldades e o papel dos museus no mundo contemporâneo; considerando desafios enfrentados cotidianamente em tantas esferas - políticas, culturais, financeiras, históricas, geográficas e outras mais-  e considerando também a missão e os objetivos de um museu. No mundo contemporâneo, a Museologia se faz necessária principalmente no que tange as áreas da museologia social e comunitária; desde que se faça esse trabalho com seriedade e compromisso, uma vez que o seu impacto é forte e necessário.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

MUQUIFU, uma experiência simbiótica entre o museu e a comunidade.









Como um estudante de Museologia, já participei de diversas visitas técnicas, com museus de muitas caras e lugares, histórias de todos os tipos. Chamo aqui, a nossa atenção especial para o  , Museu dos Quilombos e Favelas Urbanas, e sua proposta para uma museologia de viés comunitário. A recepção por si só já esclarece a diferença. Somos recebidos por Pe. Mauro acompanhado por Clayton, um dos artistas envolvido na concepção artística do espaço. Embora os dois não sejam moradores da comunidade, ambos estão diretamente envolvidos.

Este contato tão próximo com importantes atores de todo o processo museológico que acontece no MUQUIFU foi um privilégio para a turma do curso de Museologia da UFOP. O calor que vem da proximidade com o coração do museu é ímpar, em comparação com as instituição de cunho mais tradicional. As diferenças vão ficando cada vez mais claras, somos acolhidos em uma igreja. Esta é museu ou não é? Um museu dentro de uma igreja ou uma igreja dentro de um museu? Aos poucos Pe. Mauro, com a ajuda de Clayton, vão nos falando sobre o templo, e como sua história, mas sobre tudo, a história da comunidade onde este se insere, estão representados ali em primeiro plano. 


Pintura da Igreja do MUQUIFU   Foto: José Hansen (2018)

Estão, nas paredes da igreja/museu a história das pessoas envolvidas com o bairro e o templo representadas por alegorias bíblicas, uma boa chave para a resposta da pergunta acima. A simbiose museu-igreja está ali, são indissociáveis, assim como o MUQUIFU e sua comunidade. A visão decolonial dos santos e anjos negros quebra com a hegemonia branca naturalizada pela igreja no Brasil e em boa parte do mundo. Imagino que deixe os mais conservadores chocados, o que na minha opinião é é interessante. 


Pintura da Igreja do MUQUIFU   Foto: José Hansen (2018)

Em uma cidade, que antes de virar Belo Horizonte, e capital de Minas Gerais, se chamava Curral Del-Rey, e tinha a maioria de sua população negra, e sofreu um processo de embranquecimento, ver jesus negro, pintado na parede da igreja é no mínimo um marco, uma declaração, estamos aqui, não vamos embora.


Após o primeiro momento de acolhimento e encerradas as explicações sobre a igreja, fazemos uma pausa para um maravilhoso almoço, comida gostosa, dessas feitas com amor. O momento traz um santo silêncio para a capela, mas devo sua é reza, é comida gostosa. Arroz, strogonoff de frango, uma farta salada e tabule compõem nosso prato, que enche a barriga dos esfomeados estudantes após a a viagem de Ouro Preto para BH. Felicidade no rosto e energia renovada, estamos prontos para conhecer o resto do museu. 

Prato de comida   Foto: José Hansen (2018)

Fazemos uma visita bem livre, de acordo com as curiosidades e interesses de cada um, ou cada grupo. Nossos dois novos amigos nos acompanham entre as salas do museu, sempre com boas histórias sobre os objetos, lugares e sobre a vida destes e das pessoas que ali, de certa foram, habitam. Em um museu comunitário os valores são outros, e estão contidas na beleza das pequenas historias, do cotidiano, que tem a capacidade de nos emocionar. Deixo aqui um pequeno recorte de imagens feitas no MUQUIFU para instigar sua visita                                              Turma de Museologia do sétimo período da UFOP  Foto: José Hansen (2018)


Parte do acervo do MUQUIFU   Foto: José Hansen (2018)

Parte do acervo do MUQUIFU   Foto: José Hansen (2018) 


Por fim, deixo aqui os links para facilitar seu comunicação via internet para agendar sua visita ao MUQUIFO em BH, um visita que certamente vai mudar sua concepção de museus, quilombos e favelas urbanas. 









MUQUIFU, lugar de histórias e pertencimento...





Andreia Miranda
Nayara Fernandes
Sarha Hottes

“Temos como vocação garantir o reconhecimento e a preservação dos patrimônios socioculturais das favelas, os verdadeiros quilombos urbanos do Brasil. Lugares não apenas de sofrimento e de privações, mas de memória coletiva digna de ser cuidada.” 

O Muquifu – Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos surgiu em 2012, em Belo Horizonte, no Aglomerado Santa Lúcia. O Museu surgiu a partir do risco de expulsão dos favelados dos centros urbanos, com o intuito de ser resistência e meio transformador, além de querer reconhecer e preservar o patrimônio, das histórias, das memórias e dos bens culturais dos moradores dos Quilombos Urbanos e Favelas de Belo Horizonte. Em 2014, o Museu foi instalado na capela da Vila Estrela.
O museu tido como de território ressalta a importância e valor que as memórias individuais e coletivas têm, é lugar de memória e representatividade, que reúne como acervo, fotografias, objetos, imagens de festas, danças, tradições e histórias que representam a vida cotidiana dos moradores, sendo que as pessoas da comunidade são agentes contadores de histórias, uma vez que o acervo do museu, em sua maioria, foi doado por eles próprios, sendo assim, são eles que escolhem, a forma como serão representados, os objetos e a forma que serão expostos para contar sua história.
O museu, por meio de seus objetos, sujeitos, histórias e memórias, implica no visitante uma ressonância muito forte. Segundo o autor José Reginaldo Gonçalves, o objeto é dotado de ressonância pois possui valor simbólico e afetivo, sendo assim capaz de evocar nas pessoas sentidos e significados. E, é por meio dessa ressonância, que o visitante do museu passa por diversas experiências e sentimentos, experiências essas pelas quais passamos ao visitar o museu, em especial quando tivemos contato com a instalação denominada “Domésticas, da escravidão à extinção” que reproduz um quartinho de empregada, com móveis que transparecem extrema simplicidade e que representam a realidade de muitas mulheres que para sustentar suas famílias precisam deixar seus lares.



Foto 1: Quartinho de Empregada. Fonte: Nayara Fernandes (2018)

O quartinho de empregada desperta uma série de sentimentos e sensações, principalmente nas pessoas que possuem um vínculo afetivo com essa história, com essa realidade de lutas e anseios, seja pelo fato de se reconhecer no espaço ou por ele nos evocar a lembrança de alguém.

Foto 2: Quartinho de Empregada. Fonte: Nayara Fernandes (2018)

Um dos elementos mais relevantes encontrados na instalação são os depoimentos deixados nas paredes do quarto, que trazem memórias, emociona quem os lê, pois são relatos a uma realidade que na maioria das vezes é solitária e árdua, onde as pessoas que exercem essa profissão, geralmente, abdicam do convívio com a própria família, da sua cidade, para ganhar o sustento e ajudar os familiares.
O vínculo estabelecido com a exposição foi tão forte, que uma aluna do curso se emocionou profundamente ao reconhecer a história de sua mãe naquele lugar. Já idosa, a mãe da aluna que durante toda vida trabalhou como empregada doméstica para sustento da família e ainda exerce a profissão para ajudar a mantê-la em outra cidade para que ela possa fazer faculdade em uma instituição federal, e dessa forma, realizar o sonho de ver a filha se formando.

“A vida inteira minha mãe trabalhou como doméstica e hoje em dia estou na universidade graças aos sacrifícios que ela e meu pai fizeram”

Visitar o Muquifu é uma experiência emocionante, pois os relatos, as histórias, os objetos e a museografia característica do museu constroem um lugar de pertencimento e reconhecimento, através de uma narrativa que retrata a vida, as alegrias e as dificuldades enfrentadas pela comunidade, de forma a imortalizar seus moradores e valorizar a riqueza cultural pertencente ao local.



Referência
GONÇALVES, José Reginaldo; BITAR, Nina Pinheiro & GUIMARÃES, Roberta Sampaio. 2013. A alma das coisas: patrimônios, materialidade e ressonância. Rio de Janeiro: Mauad: FAPERJ. 296 pp.