a tradição das visitas técnicas

No inverno de julho de 1945, quando as moças e senhoras costumavam usar chapéus em roupas de passeio e os homens trajavam ternos à rua, a turma do Curso de Museus do Museu Histórico Nacional/RJ excursionava para a cidade de Ouro Preto em Minas Gerais. O grupo de 19 pessoas veio de trem numa viagem que durou 16 horas. Durante a permanência de uma semana visitaram também as cidades de Mariana, Congonhas do Campo e o então arraial de Ouro Branco.

Passados 68 anos, o Curso de Museologia da UFOP mantém a tradição das visitas técnicas iniciada pelo Curso de Museus. Todo semestre o DEMUL se reúne para discutir e aprovar os roteiros de viagens das disciplinas que possuem visitas previstas em suas ementas. Em geral, os estudantes organizam a hospedagem, na busca de conforto, higiene, bom preço e localização. Os professores, claro, responsabilizam-se pela elaboração dos roteiros detalhados, agendamentos, relatórios posteriores, avaliações e ainda por todo o aspecto operacional de deslocamento.

Em meio à transitoriedade do mundo contemporâneo as visitas técnicas permanecem uma boa tradição que nos orgulhamos em manter devido à sua importância como recurso pedagógico.

Este blog cumpre, pois o objetivo final de avaliar os estudantes em suas visitas aos museus. Suas postagens são registros, narrativas e leituras da experiência vivida, um diário coletivo, dinâmico, crítico, quiçá, divertido.

Tenham todos uma boa leitura e uma boa viagem!

Prof.ª Ana Audebert


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Museu da Loucura e o Turismo acrítico

Um museu que quer se retratar perante os internos ou um museu que quer atrai turistas?
     Essa foi a pergunta que me fiz quando vi essa cena no Museu da Loucura, localizado em Barbacena, Minas Gerais:

Foto 1: Recepção do Museu da Loucura com um estandarte do Tripadvisor  

     O Museu da Loucura, museu inaugurado em 1996, pela parceria da Fundação Hospitalar do Estado de Minas e a Fundação Municipal de Cultura de Barbacena, faz parte do Projeto Memória Viva.
     Museu com ótima acessibilidade, acervos, audiovisual e ótimos funcionários. Um museu que, com meu olhar de turismóloga, é um ótimo dispositivo de turismo. No entanto há de se pensar que tipo de turismo e que tipo de turista visita esse Museu: mais um museu na rota turística de Barbacena? Um museu que conta uma história que não pode ser repetida? Aliás, a história que é contada é real ou pintada?
     Já na entrada pode-se imaginar que os internos viviam num lugar bonito, por assim dizer. O museu se assemelha à um castelinho: 
Foto 2: Entrada do Museu da Loucura

     Contudo, João, um dos funcionários do Museu nos contou que os internos não ficavam ali. O Hospital Colônia se encontrava dentro da Fazenda da Caveira e este se encontrava a 3 km dali, ou seja, o museu não se encontra no mesmo local onde os internos ficavam.
     
     
     Logo na entrada há uma placa de "boas vindas", onde a narrativa começa se auto-denominando "Caldeirão do Inferno". Já nessa placa há informações das torturas que os internos passavam.
Foto 3: Placa na entrada do Museu da Loucura
     Uma placa que pode criar alguns sentimentos como o de suspense pelo o que há de vir ou de repulsa pelas torturas passadas como a lobotomia e os choques elétricos. 

     Na sala ao lado há a exposição dos uniformes utilizados pelos internos; bem, quando usados, porque na década de 60  o Hospital detinha o número de 6 mil internos com capacidade de 200.


     Continuando pelo circuito do museu, chega-se a uma sala em que à direita está exposto os instrumentos de choques elétricos.
Foto 4: Instrumentos de eletro-choque

     Na mesma sala, à frente, há material audiovisual contendo partes da reportagem que saiu na revista "O Cruzeiro".


     E na parte direita da foto há relatos da alimentação dos internos que era preparada por outros internos e uma instalação.
Foto 5: Instalação com as panelas e utensílios utilizados no Hospital Colônia

     Pode-se perceber como o ambiente criado é para que o visitante mergulhe num ambiente triste e frio, no entanto, em nenhum momento, cita-se nomes de médicos e funcionários.

     A criação de um filme de terror dramático continua quando sobe-se para o segundo andar, no primeiro momento, um susto: a foto de uma interna (ou detenta) presa numa grade, enjaulada e semi nua, como um ser sem direitos. "A última grade", como se chama a instalação, só foi retirada em 1990, ou seja, até esse momento, os internos (ou detentos) eram presos.

Foto 6: interna enjaulada

     Logo ao subir, à direita, há a sala com relatos (em áudio) contidos no documentário "Em nome da razão", de Helvécio Ratton, lançado em 1979.

     Já à esquerda, a possível reparação do Hospital Colônia agora como espaço museal para com os internos, com relatos jornalísticos citando nomes dos responsáveis.

Foto 7: poster com reportagens jornalísticas denunciando os absurdos

     Ainda na restituição dos direitos, a sala a seguir fala sobre a Luta Antimanicomial.
  
Foto 8: Luta Antimanicomial

     No entanto, mesmo depois dessa tentativa de reparação, há a sala da lobotomia, onde o filme de terror dramático volta.
Foto 9: Sala da Lobotomia



     Voltando para o estandarte que o Museu ganhou do site Triadvisor; pesquisei o que os visitantes falaram e postaram sobre o Museu. Para isso postarei alguns relatos e fotos em ordem crescente de recomendação. No site o Museu tem 152 avaliações, sendo que 81 são "excelente", 46 "muito bom", 13 "razoável", 5 "ruim" e 7 "horrível".
Figura 1: avaliação "horrível"

Figura 2: avaliação "ruim"

Figura 3: avaliação "razoável"

Figura 4: avaliação "bom"

Figura 5: criança no Museu

Figura 6: avaliação "excelente"

Figura 7: casal sorrindo com legenda "triste história"

     A partir das avaliações e dos relatos pude perceber que é um Museu com, também, caráter turístico, o que pode levar a um turismo predatório e acrítico.


“O brincar é uma atividade humana criadora, na qual imaginação, fantasia e realidade interagem na produção de novas possibilidades de interpretação, de expressão e de ação pelas crianças, assim como de novas formas de construir relações sociais com outros sujeitos, crianças e adultos.” 
– Lev Vygotsky, no livro “A formação social da mente.
São Paulo: Martins Fontes, 1987.
Fonte: Revista Prosa Verso e Arte

Dentro deste pensamento, podemos refletir sobre um comparativo utilizado a partir da introdução de fotos de crianças internas do Museu da Loucura de Barbacena – MG,  inseridas na obra de Ricardo Ferrari – Série ‘Lembranças da minha infância’ (2012) imagem copiada da foto de Tina Carvalhães e adaptação de Mara Lúcia.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Crônica: Uma ferida na Memória

   Era uma manhã de sábado, 09 de novembro, eu havia ido dormir tarde no dia anterior, ultimamente meu sono anda meio desregulado com esse fim de período. Mas incrivelmente nesse dia sair da cama não me pareceu ardiloso. Eu tinha um motivo. A visita técnica. Um rock a fantasia. Tudo no mesmo dia. Coloquei minha fantasia de fada em uma sacola. Peguei uns trocados na escrivaninha pra pagar o almoço na estrada. Subi aquele morro da bauxita. Era um dia nublado. Quase chuvoso. Mas logo que cheguei na UFOP vi uma amiga. E logo apareceu outra.  E outra. Guardamos nossas roupas em uma sala do prédio do EDTM. 
  Passou um tempo, e logo o ônibus que nos levou pra Barbacena apareceu. Embarcamos. Um pouco atrasados. Mas logo chegamos naquela cidadezinha que sempre ouvi falar.O ônibus quase não conseguiu atravessas o arco que fica nessa entrada do museu e hospital. Sim, os dois ficam juntos. As energias desses lugares se misturavam em um ar de intrigante. Logo avistamos uma placa. "Museu da Loucura". Uma escada dava acesso a entrada. Algo que reflete a falta de acessibilidade.
  Nesse local encontramos um senhor, simpático, com uma blusa azul  que nos recepcionou. Em um corredor ao seu lado um quadro trazia uma breve história sobre a construção do Complexo de Assistência dos Alienados de Minas Gerais, fundado em 1900. Ao fim desse corredor um Troféu Cidadania.que o Centro Psiquiátrico de Barbacena recebeu. Na descrição falam sobre a denuncia que sofreram  na década de 70. No qual o hospital foi comparado a um "campo de concentração". Afirmando que o museu retrata esse passado de horrores, para que não possa mais ser repetido.  Aqui eu respiro e fico pensando se essa é a função da história. Logo minha amiga me chamou.

  Fomos para a primeira sala. Escura. Trazia elementos como um telefone antigo.Uma linha do tempo. O sanatório e sua estação. Uma primeira ambientação. Achei tranquilo. Afinal não havia nada quanto a faixa etária que poderia visitar o museu. Entretanto, logo todo clima foi impactado por uma boneca velha, com roupas maltrapilhas, suja. Ao seu lado um boneco de pano,  com um chapéu preto, uma gravata verde segurando uma caixa. Abaixo a descrição que ambos pertenceram a indivíduos que estiveram internados no hospital. Aqueles bonecos que eram algo que significavam normalmente diversão. Dentro dos limites daquela vitrine traziam uma experiência dolorosa. Um acesso a uma memória que quer ser esquecida. Essa era apenas a segunda sala.


Boneca que pertenceu à paciente Sueli Aparecida Resende ( 1855-2009)
Bonecas de pano feitas por pacientes do Hospital Colonia 
Pratos, canecas de alumínio e cachimbos que pertenceram a pacientes.
    
   Um aparelho chamado eletrocardiograma desenvolvido na década de 1930 na Itália abria espaço para uma outra sala. Abaixo dele a descrição apresentava os riscos que esse e diversos outros instrumentos como aquele causavam no paciente. Ao lado  um painel trazia fotos dos internos e um dizer  " tira nóis dessa prisão" . Uma prisão que era abastecida constantemente por "trens de doido". Um painel trazia essa informação, essa era " a cidade dos doidos". Com algemas. Correntes. Camisas de força, Manchons, Correias, Faixas, Cordas. Grades. Inclusive, uma vitrine trazia uma dessas grades. A ultima grade. Fechada em 1990. Tudo isso como forma de conter e silenciar o sofrimento de quem queria apenas gritar. Porém esses gritos foram ouvidos.
   Uma escada em espiral nos levou a sala com várias manchetes de jornais. A mídia foi a porta-voz dessa violência. "Em nome da razão" um documentário que havíamos assistido uma semana antes na aula, foi retratado como elemento importante na luta "anti-manicomial". Na sala ao lado cartazes e tapetes iluminavam a saída com informações e noticias em prol do 18 de maio. Dia Nacional da Luta anti manicomial. Porém não acabou. Uma sala que cabia no máximo 2 pessoas. Trazia os instrumentos e fotos que retravam os horrores da lobotomia. Prática comum na época para tratamentos de pessoas consideradas "desajustadas".

                    
Manchetes de jornais denunciando os horrores                                    Sala da Lobotomia

  Na frente dessa sala uma ultima. Toda escura trazia um poema no centro retratando como os "doidos" eram excluídos pela sociedade. Em cada canto desta sala havia uma caixa de som com áudio das entrevistas que Helvécio Ratton fez com as vitimas desse massacre.Na saida uma grade com a foto de uma mulher atrás, finalizava a visita com ecos dos gritos dados nesse local. Ao sairmos a chuva já caia. Fomos para o ônibus. Depois de alguns minutos, todos estavam calados seguimos viajem.

Foto da mulher e a grade 
  Nesse silêncio, eu observava aquela estrada. O horizonte cheios de morros. Os pingos de chuva correndo pela janela. E refletia sobre como o museu da loucura enquanto trauma, ferida na memória, causa uma falta de capacidade de recepção. É perceptível que mesmo diante de todos os limites da representação o real é algo traumático Por isso silenciar é muitas vezes aliar-se ao viver.  Afinal são poucos os brasileiros que se lembram dessa história.
 Contudo, hoje, creio eu, estamos nos aproximando de um progresso no processo de rememoração de eventos traumáticos. Afinal, por exemplo, já existem aplicativos de turismo que indicam o próprio museu da loucura enquanto local a ser visitado. Isso é um avanço. Porém ainda se tem muito a que caminhar na busca por uma história que traga a voz dos oprimidos. Não apenas com a história dos vencedores.
  Por isso, é preciso ter em mente que que se conte essa história traumática enquanto indicível não pra que se conheça ela, mas sim " para que tomem consciência de que nunca a conheceremos".Chegamos em Ouro Preto. Hora de festejar. A liberdade dos pretos, Lgbts, mulheres independentes, dos oprimidos. A luta não acabou aqui. Amanhã há de ser outro dia.
MUSEU DA LOUCURA DE BARBACENA: DIGITAL DO HOMO DEMENS Marco Antonio Leite Brandão 17.2.5884 Uma viagem ... NÃO Como a de George Méliès !! A de Júlio Verne !! De Monteiro Lobato !! ... Que nos levam à Lua ... ao mundo da Lua ... Ao nicho de Chang’e ... Território de São Jorge ... De Mama Killa ... MAS uma viagem ... Como a vivida por Joseph Conrad No “Estado Livre do Congo” do Rei Leopoldo II: “Coração das Trevas” !! Como a sublinhada por Peter Davis Em “Corações e Mentes” Extraindo siso cravado na carne do Vietnã: “O oriental não dá o mesmo valor à vida que o ocidental” Por espelho do coronel Kurtz ... revisitado Por Francis Coppola no “Apocalipse Now” Como a de Aguirre descendo o Rio Amazonas De Kaspar Hauser fugindo à voz do pregador Ficcionalizadas por Werner Herzog: “Cada um por si, Deus contra todos” !! Como a de Helvécio Ratton intitulada: “Em nome da Razão” Um turbilhão de imagens !!! Redemoinho de imagens !!! Essa viagem ... Excursão técnica de um Curso de Museologia: Museu da Loucura ... Barbacena ... MG Leva-nos a mais uma versão de dantesco episódio Tecido pelo Homo Ludens (Com mãos avermelhadas De Lady MacBeth ...) E penso Na Razão Iluminista como racionalidade da morte ... Triunfo do Progresso x Civilização X Positivismo X Racionalidade Instrumental ... E penso Em Wounded Knee ... Unidade 731 ... Em Dachau ... em Canudos ardendo Cosendo a sanidade de Euclides da Cunha: “aquilo foi uma charqueada” ... Deixo o espaço musealizado sob hálito do 9.º círculo de Dante ... Irremediavelmente batido ! Num relance sob grande tensão . Dilacerado Penso em Primo Levi: “É isto um Homem?” - “Existe Auschwitz ... Não existe Deus ...” Penso na Banalidade do Mal Bombardeado Penso em Walter Benjamin ... (e sua Esperança !!) Penso em Nise da Silveira ... (e sua Esperança !!) Estilhaçado Penso em Dalton Trumbo ... Penso em Kon Ishikawa ... Fragmentado Penso nesse Museu da Loucura Sobre o espectro do Hospital Colônia De Barbacena Homízio da “Deusa Razão” enlouquecida ... Em delírio goyesco Colonizador e subjetivador e ... internalizado no imaginário da Coorte brasileira .................................................................................................... E uma descarga de adrenalina varre-me a espinha Como se um apito de trem ecoasse ao longe !!! E ameaçasse a ancorar aqui ... Novamente ... Bem defronte !!! REFERÊNCIAS / VÍDEOGRAFIA: AUSCHWITZ, plangées dans l’enfer. France2Berlin, 2015 www.youtube.com/watch?v=q9NhBEP5dfM., Acesso 16/11/2019 AUSCHWITZ-BIRKENAU MEMORIAL AND MUSEUM, Official Site. 2015. www.youtube.com/watch?v=znO6WRX3TpA. Acesso, 19/11/2019 [On July 2, 1947, the museum was founded by resolution of the Polish parliament. The area covers 191 hectares, twenty of them in camp Auschwitz I and 171 in camp Auschwitz II. Since 1979 the former concentration camp has belonged to the World Cultural Heritage and more than 25 million people have visited the museum. From 1955 to 1990 the museum was directed by one of its founders and former inmates, Kazimierz Smoleń. The areas of remembrance are Auschwitz I, Auschwitz II-Birkenau, the train ramp between Auschwitz and Birkenau, which was used as a "debarkation-stop" between 1942–1944. The three kilometres between Auschwitz and Birkenau are within walking distance. The museum is situated in several original buildings. The number of visitors has been increasing year by year. In 2006 more than one million people from 94 countries visited: from Poland (341,000), U.S. (96,000), UK (57,200), Italy (51,000), Germany (50,200), France (39,100), Israel (37,200), South Korea (35,400), Norway (30,600), and Spain (23,300). There were 1.3 million visitors in 2009 and 1.38 million in 2010. In 2011 more than 1.4 million people from 111 countries visited: from Poland (610,000), United Kingdom (82,000), Italy (78,000), Israel (62,000), Germany (58,000), France (56,000), United States (52,000), Spain (46,000), South Korea and Czech Republic (43,000 each). After the Soviet Union handed over the camp to Poland in 1947, the parliament declared the area to be a museum on July 2, 1947. Simultaneously the first exhibition in the barracks was opened. On the occasion of the seventh anniversary of the first deportation of Polish captives to camp Auschwitz, the exhibition was revised under assistance of former inmates. However, this exhibition was influenced by the Cold War and next to pictures of Jewish ghettos, photos of slums in the USA were presented. After Stalin's death, a new exhibition was planned in 1955, which is basically still valid today. In 1959 every nation who had victims in Auschwitz received the right to present its own exhibition. However, victims like homosexuals, Jehovah's Witnesses, Sinti and Roma and Yeniche people did not receive these rights. The state of Israel was also refused the allowance for its own exhibition as the murdered Jews in Auschwitz were not citizens of Israel. In April 1968 the Jewish exhibition, designed by Andrzej Szczypiorski, was opened. A scandal occurred in 1979 when Pope John Paul II held a mass in Birkenau and called the camp a "Golgotha of our times". In 1962 a prevention zone around the museum in Birkenau (and in 1977 one around the museum in Auschwitz) was established in order to maintain the historical condition of the camp. These zones were confirmed by the Polish parliament in 1999. In 1967 the first big memorial monument was inaugurated and in the 1990s the first information boards were set up] CONRAD, Joseph. O Coração das Trevas, Grandes Livros, Civilization, Postado em 2012, www.youtube.com/watch?v=1OOmk1c59u8. Acesso 17/11/2019 COPOLLA, Francis Ford. Apocalipse Now, 1979 DAVIS, Peter. Corações e Mentes, Documentário, 1975.www.youtube.com/watch?v=zdJcOWVLmmU. Acesso 18/11/2019 HERZOG, Werner. O Enigma de Kaspar Hauser, 1976. https://www.youtube.com/watch?v=yOXokua_1g4, Acesso 17/11/2019 MÉLIÈS, Georges Viagem a Lua (1902), Museu de Imagens, Postado em 2011, www.youtube.com/watch?v=rttJC8B1aMMo, Acesso 18/11/2019 FIRMINO Hiram, Nos porões da Loucura, Opinião Minas, Rede Minas, Entrevista, 2016 www.youtube.com/watch?v=_-ttc57eiuM. Acesso 17/11/2019 MUSEU DO HOLOCAUSTO (Washington, EUA). Reportage France 24 www.youtube.com/watch?v=eFluEpK1Hyo, Acesso 16/11/2019 PRIMO LEVI RETORNA A AUSCHWITZ, 2016, www.youtube.com/watch?v=L3gthsZN9Wg. Acesso 17/11/2019 RATTON, Helvécio. Em nome da Razão- ou Um filme sobre os porões da loucura, Quimera Filmes, 1979. THE PRAGUE BAROQUE ORCHESTRA, Maestro Trevor Pinnock Adágio de Albinoni https://www.youtube.com/watch?v=u99f9RAvwu4, Acesso 16/11/2019 TRUMBO, Dalton. Entrevista a Stan Borhman, Postado em 2015. Acesso 17/11/2019, www.youtube.com/watch?v=_yxDUAoatnU REFERÊNCIAS ............................................................................................................................ UNIDADE 731. II Guerra Mundial (1939-1945). Local secreto do Exército Imperial Japonês dedicado a pesquisa e desenvolvimento de guerra biológica e química que realizou experimentação humana letal. Situada na cidade de Harbin, Manchúria, China. Funcionou de 1934 a 1944 WOUNDED KNEE. Massacre de índios sioux em North Dakota. 1890 Postado em 2011. www.youtube.com/watch?v=0EdRT56WK7Q. Acesso 18/11/2019 DACHAU. Campo de Concentração próximo a Munique, Alemanha. Construído logo após Hitler ter assumido o poder em 1933. DEUSA RAZÃO. Episódio da Revolução Francesa. KON ISHIKAWA (1915-2008), cineasta. Diretor, entre outros de “A Harpa da Birmânia”, evocação para o poema WERNER HERZOG (1942-), cineasta. Diretor, dentre outros, de O Enigma de Kaspar Hauser, evocação para o poema

terça-feira, 19 de novembro de 2019



Em visita-técnica ao Museu da Loucura, em Barbacena.



Como terá sido ser jogado numa ‘casa de alienados’ ?

Como terá sido ser jogado numa ‘casa de alienados’, estando são ?

Como terá sido ser jogado numa ‘casa de alienados’, estando são, contra a vontade ?

Como terá sido ser jogado numa ‘casa de alienados’, estando são, contra a vontade e ser mulher ?



“Quem não era louco, ficava” – João B.











- É na torre que ficam encarcerados os loucos ?

- Sim, estão sempre vestidos de branco, parecem até médicos. Disfarçam-se de senhores de bem. Quase ninguém desconfia.







Não era a camisa do seu time favorito. Não era o uniforme do colégio. Era o azulão. O embrulho identificava o conteúdo. Eram números apenas. De 1 a 6.000. Internados. Esquecidos. Mortos. Enterrados. Corpos vendidos.





A boneca na vitrine nunca teve com quem brincar. Nunca conheceu mãe, nunca foi ninada em colo algum. Nunca adoeceu, nem foi ao médico (graças a Deus!) Nunca teve festa de aniversário ou roupa descente. Descende de um interno.


                                                     De qual ? De quem ? Se não interessa a ninguém. 





 Domínio Público

Era uma vez uma Sueli que era mãe de Débora e de outra nascida na mesma hora, no mesmo dia do mesmo ano. Pobre da Sueli, ficou sem as duas filhas. Deu para perambular e falar sozinha. Era uma vez uma Sueli que cantava com domínio vigiado, privado. Condomínio dos alienados.






Onde estão os batedores de panela ? Ou os coxinhas ?



A cadeia era produtiva. O dono do frigorífico ficou rico. O dono da padaria ficou rico. O dono da mercearia ficou rico. O dono da loja de tecidos ficou rico. Os médicos, idem.

Os internos quando chegavam ficavam sem dentes. Então a comida era triturada, só para dar gosto, não para ser mastigada.

A gente se acostuma, mas não devia.





Muito riso, sinal de pouco juízo, dizia minha tia. Será ?  Ala atual. Espaço disfarçado de cores e alegrias no Museu da Loucura, em Barbacena. Uma homenagem a quem não foi, a quem não esteve ? Em pensamento : Nise da Silveira - a que humanizou a psiquiatria, a que tratou de fazer bater o coração da psiquiatria artística, dando novas chances a quem não tinha.

Quando nasci um anjo alegre, torto e maquiado me soprou ao ouvido... ‘vai, menina, vai ser artista na vida’ (Com licença viu, Seu Drummond)
Recado: Impossível deambular pelo museu. Impossível transitar indiferente pelo espaço. A dor é um dos processos de fruição que precisa ser compartilhado para que não sejamos mais 'números' e, sim, pessoas.

A tradução do que foi o Hospital Colônia de Barbacena em versos



Hospital Colônia, uma barbárie em Barbacena

"Uma barbárie que nem tem como mensurar,e
Uma parte da história difícil de recordar.
Pessoas tratadas pior que bicho,
Seres humanos jogados como lixo.

Pessoas com e sem doenças mentais largadas lá,
Tratados como escória que alguns queriam ignorar.
E pensar que meu tio José Pires foi interno desse hospício,
Saudade, horror e o descaso  seus algozes desde o início.

Hospital Colônia, Holocausto Brasileiro,
Esse pedaço da história envergonha o povo mineiro.
Barbárie, crueldade, sofrimento de inocentes,
Meu tio saiu de lá mas as sequelas ficaram presentes."
(Rosalina Lopes Pires Fialho)

A poesia acima descreve um caso real, cedido gentilmente pela Rosalina, que teve um tio como paciente no Hospital Colônia de Barbacena em meados dos anos 50, o que a inspirou descrever desta forma como seu tio fora tratado dentro desse hospital e retirado pela família ao saber o que ocorria lá dentro, que se aplica às discussões sobre o Museu da Loucura. A instituição apresenta o ápice de todo o contexto da poesia, visto que é um espaço de muita reflexão e possibilidades de leitura. Tudo que denota a natureza humana e traz consigo questões sobre a memória traumática, reflete uma aura dos objetos com menos visão técnica e mais sobre sensibilidade. Ou seja, a emoção acaba sobressaindo-se em relação à razão, e possibilidades de leituras mais amplas se perdem.


Entretanto, há detalhes que são mais obscuros e não relatados, devido até pelo teor da barbárie apresentada, como o próprio nome de “Museu da loucura”, este não traz a memória da loucura como um todo, mas sim um recorte sobre determinado período sombrio do hospital psiquiátrico Colônia de Barbacena-MG.
Portanto, todo o contexto trazido até mesmo durante a mediação, desde os métodos de tratamento até o ócio dos pacientes, revela traços do que o Museu mostra em detalhes com seu acervo, todo ele inclusive do próprio Hospital Colônia.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018










Encontro entre Comunidade e Museu: uma construção de identidades

Por: Iolanda Leiko, Lara Martins e Mariane Rodarte





O impacto visual da comunidade Vila da Estrela provoca o estimulo à novas leituras das paisagens urbanas. Alguns autores nos ajudam a entender a filosofia da “Liberdade da Cidade”, que é portanto, o direito de acesso aquilo que já existe, porém possui também o direito de mudança de acordo com nossos desejos. Se descobrirmos onde vivemos veremos que esse direito de mudar e reconstruir as cidades é nulo quando direitos são barrados por forças que impedem o reconhecimento do ritmo e escala da urbanização, que muitas vezes correm em direção a enfatizar as desigualdades sociais separando-as em classes.

As classes são destacadas quando observamos os movimentos que surgem das regiões periféricas da cidade, afim de ganhar notoriedade e chamar atenção às questões sociais. O Muquifu – Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos se apresenta como um lugar que dá voz à comunidade da Vila da Estrela, tendo esse propósito desde o seu surgimento.
O Muquifu nos proporciona a ver materialmente essa conexão entre comunidade e Museu. Na fotografia abaixo podemos visualizar o quanto a comunidade está dentro dele.



Foto 1: Fotografias comunidade da Estrela  - Iolanda Leiko




Nosso impacto ao entrar na primeira sala, que no caso é uma capela, foi de admiração e confusão de sentimentos ao mesmo tempo. Conhecer a história da Capela e do Museu fez parte de uma nova perspectiva para nós que seremos futuros profissionais na área.

O Padre Mauro Luis da Silva que nos recebeu com muita alegria e felicidade em estar fazendo parte da resistência que é um Museu de Território. E o que nos deixou mais felizes, foi o fato de que outras religiões e crenças são bem vindas nesse espaço, o padre pareceu ter muito respeito, sensibilidade e entendimento do que "aquilo tudo" significava, o que o torna diferenciado.

A segunda parte do Museu, é dedicada aos desejos do que a comunidade quer expor, é feita uma curadoria compartilhada. Os objetos são carregados de significados e sentimentos, o que muitas vezes pode nos parecer um artefato normal, porém há uma história por de traz que o torna especial.

Foto 2: Capela Muquifu



No segundo piso é possível reconhecer a sensibilidade com outras crenças que falamos nos parágrafos anteriores. Onde, são expostas vestimentas, fotografias e altares do congado. Uma coisa interessante é que quase todo o acervo que está nesse módulo é utilizado nos cortejos.

Foto 3: Fotografia Congado - Iolanda Leiko









Impacto da localização entre comunidade e bairros nobres é o que está em volta do Muquifu. E como agente interagente ele cumpre um papel social importantíssimo para aquela comunidade. Isso foi só um pouco do que pode-se encontrar nesse lugar incrível.
Para quem quiser conhecer mais um pouco do Muquifu...


As visitas são realizadas na Sede Vila Estrela, situada à Rua Santo Antônio do Monte,       708, Vila Estrela, Bairro Santo Antônio.

A Sede Beco Santa Inês, no Beco Santa Inês, 30, Barragem Santa Lúcia, é o local onde são realizados alguns eventos e está localizada a Biblioteca.
 


Endereço: Rua Santo Antônio do Monte, 708 - Santo Antônio
Telefone: 31 3296-6583
31 98798-7516
E-mail: comunicacaomuquifu@gmail.com
Informações Adicionais: Agende a visita guiada individual, para grupos, ou escolas, pelos telefones (31) 3296-6690 ou (31) 3296-6583, ou pelo e-mail padremauro@hotmail.com.
As visitas acontecem sempre às quartas-feiras, de 14 às 17 horas e aos sábados, de 10 às 16 horas, na sede do Museu.

facebook:
www.facebook.com/pg/muquifu/about/?ref=page_internal


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Fontes:
Harvey, D., Alfredo, A., Schor, T., & Boechat, C. (2009). A LIBERDADE DA CIDADE. GEOUSP: Espaço E Tempo (Online), (26), 09-18. https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2009.74124