a tradição das visitas técnicas

No inverno de julho de 1945, quando as moças e senhoras costumavam usar chapéus em roupas de passeio e os homens trajavam ternos à rua, a turma do Curso de Museus do Museu Histórico Nacional/RJ excursionava para a cidade de Ouro Preto em Minas Gerais. O grupo de 19 pessoas veio de trem numa viagem que durou 16 horas. Durante a permanência de uma semana visitaram também as cidades de Mariana, Congonhas do Campo e o então arraial de Ouro Branco.

Passados 68 anos, o Curso de Museologia da UFOP mantém a tradição das visitas técnicas iniciada pelo Curso de Museus. Todo semestre o DEMUL se reúne para discutir e aprovar os roteiros de viagens das disciplinas que possuem visitas previstas em suas ementas. Em geral, os estudantes organizam a hospedagem, na busca de conforto, higiene, bom preço e localização. Os professores, claro, responsabilizam-se pela elaboração dos roteiros detalhados, agendamentos, relatórios posteriores, avaliações e ainda por todo o aspecto operacional de deslocamento.

Em meio à transitoriedade do mundo contemporâneo as visitas técnicas permanecem uma boa tradição que nos orgulhamos em manter devido à sua importância como recurso pedagógico.

Este blog cumpre, pois o objetivo final de avaliar os estudantes em suas visitas aos museus. Suas postagens são registros, narrativas e leituras da experiência vivida, um diário coletivo, dinâmico, crítico, quiçá, divertido.

Tenham todos uma boa leitura e uma boa viagem!

Prof.ª Ana Audebert


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Para falar de Pedro de outras maneiras: uma exposição de curta duração sobre um homem que foi Imperador do Brasil


Em comemoração ao bicentenário de nascimento do Imperador Pedro II, o Museu Imperial apresenta a exposição “Fala-me de Pedro - nas minúcias da memória”, que por meio de uma seleção de documentos e objetos relacionados a sua vida, objetiva fazer um percurso por aspectos que constroem o homem por trás da figura de Imperador, e as múltiplas camadas que cercam as memórias dele próprio e as que foram criadas sobre ele.

Percorrendo da infância à juventude, aos 49 anos de trono do monarca e os anos finais de sua vida, é possível também conhecer o homem que foi outras coisas além do posto que ocupou: o menino que buscou da maneira que podia encontrar o pai que pouco conheceu, que cresceu e era observador das estrelas, que foi estudante por toda a vida, e que além de conhecedor das coisas do mundo e dos céus, deixou diários que denotam inegavelmente um coração viajante e explorador.

Para quem visita a casa do Imperador, no que compreende o circuito expositivo de longa duração, a presença desse mesmo Imperador está em quase todas as partes, mas talvez o público reconheça o seu nome próprio, mas não o indivíduo que ele foi. O discurso convencional do museu trata de apresentar o Imperador do Brasil, pela própria força de seu nome, mas quem era esse homem brasileiro nascido Pedro? Consonante a Marta Anico “os defensores da tese da nostalgia consideram que o passado se configura como uma forma de escapismo e de redenção, proporcionando, desse modo, um regresso ansiado à autenticidade e à tradição” (2005, p. 73), mesmo que para visitar a configuração de uma casa que nunca existiu e que esse Imperador nunca ocupou.

“Fala-me de Pedro - nas minúcias da memória” é uma oportunidade de realizar uma passagem pela vida de um menino que se torna o homem Pedro de Alcântara. Para além das memórias sobre o imaginário de um Imperador, são revelados os pormenores do homem que estava por trás. As minúcias da memória de um homem que talvez o público não conheça, quando confrontadas com as que são conhecidas por esse mesmo público, possibilita olhar com mais responsabilidade a construção de uma memória, que é preenchida sim pela própria realidade, mas por outras partes também, que existem enquanto lacunas e imaginários, onde quem visita tenta conectar o Imperador que já se conhece com o homem que ainda não conhecia. Fala-me de Pedro.


Referências:

ANICO, Marta. A pós-modernização da cultura: patrimônio e museus na contemporaneidade. In: Revista Horizontes antropológicos. [online]. 2005, vol.11, n.23, pp. 71-86. CANCLINI, Néstor Garcia. Leitores, espectadores e internautas. São Paulo: Iluminuras, 2008.

https://museuimperial.museus.gov.br/falemedepedro/


Reflexões sobre a exposição da memória sensível: o Museu da Loucura em Barbacena


Os museus são, não os únicos, mas um dos possíveis lugares de memória e, assim sendo, vale refletir sobre os impactos de como essa memória é construída, cultivada e compartilhada. A partir da visita realizada ao Museu  da Loucura em Barbacena (MG) proponho algumas reflexões acerca da memória sensível a qual o museu representa, essa que diz respeito a traumas vivenciados por um grupo da sociedade e que impactam pessoas diferentes, de formas diferentes. 

Existe apenas uma forma de comunicar o sensível? Existe jeito errado? As percepções de uma visita realizada com olhos museológicos não busca essas respostas mas sim reflexões que permeiam a teoria e possibilitam a cada estudante pensar em adaptações, exemplos positivos e nas percepções de público e comunicação. Ao entrar no Museu da Loucura recebemos um forte impacto. Mas, o que vem depois do impacto? 

No artigo “Incômodo e assustador”: visitação e experiência no Museu da Loucura de Barbacena - MG (Brasil)” os autores Pinheiro e Chemim buscam analisar as “experiências de visitação no Museu da Loucura de Barbacena segundo relatos e fotografias fotografias compartilhados nos sites Google Local Guides e TripAdvisor” (2022, p. 02). Segundo os autores, a maioria dos comentários nesses sites eram de público local, ou seja, moradores de Barbacena e cidades próximas. É recomendável a leitura do artigo na íntegra, destaco aqui algumas análises dos comentários: 


No âmbito dos comentários que indicavam um choque de realidade, os visitantes afirmam que conhecer a verdade é como um “soco no estômago” (Google Local Guides, nº 119) que auxilia no desejo de efetivar mudanças: “Devemos nos chocar com a realidade para colocar seguirmos produzir mudanças. [...] É incômodo e assustador. Repensamos nossa vida” (Google Local Guides, nº 86). Isto indica que o desenvolvimento de sensações negativas nos visitantes não induz necessariamente a uma avaliação negativa da experiência, mas sim, contribui para o desdobramento da transformação pessoal individual ao final da experiência. (PINHEIRO, CHEMIM. 2002, p. 12)

 

E ainda, 

A temporalidade no Museu da Loucura é representada em passagens a este estilo: “Foi uma experiência muito forte, você se sente lá na época em que o lugar estava ativo” (Google Local Guides, nº 69) e “[...] Foi como um mergulho ao passado não tão distante e um reconhecimento de como a humanidade é frágil” (Tripadvisor, nº 48). A capacidade de evocar o passado parte, em sua maioria, da exposição de fotografias e objetos do Hospital Colônia. Isto ocorre, pois, estes componentes solidificam as condições da época no imaginário do visitante, conectam a história com o presente e induzem a pensar nas ações do futuro. (PINHEIRO, CHEMIM, 2002, p.13)

 

Os comentários de forma geral, comprovam que o museu causa forte impacto aos visitantes. No entanto, quanto desse impacto é sensível à memória das pessoas que foram vítimas do holocausto brasileiro? Pessoalmente, a sensação que fica é a da de que faltam histórias. A falta da individualidade. Quem são as pessoas que estiveram ali? Sabemos que eram enviadas para reclusão as pessoas indesejadas pela sociedade naquele período, incluindo pessoas em situação de rua, mulheres com gravidez fora do casamento, mulheres abandonadas pelos maridos ou pelos pais, crianças, homossexuais, meninas que sofreram abuso sexual, entre tantas outras. Mas, quem são essas pessoas? Qual a sua história? O que podemos fazer para que, ao “voltar ao passado” do holocausto brasileiro a individualidade dessas pessoas não seja mais uma vez negligenciada? E qual a perspectivas de futuro, qual a sementinha da reflexão pode ser plantada pela conscientização, para que essas pessoas, ainda hoje marginalizadas, não continuem sendo? 


REFERÊNCIAS


PINHEIRO, Anne Louise; CHEMIM, Marcelo. Incômodo e assustador”: visitação e experiência no Museu da Loucura de Barbacena - MG (Brasil). Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo. Universidade Federal do Paraná (UFPR). Curitiba, PR, Brasil, 2022.







O que fica à margem: reflexões a partir de uma visita ao Museu Imperial

A visita técnica ao Museu Imperial, em Petrópolis, provoca no visitante uma sensação imediata de imersão no universo do Segundo Reinado. O edifício, antigo Palácio de Dom Pedro II, e o acervo cuidadosamente apresentado constroem uma narrativa coesa sobre o período imperial brasileiro, tendo o imperador como figura central e fio condutor da experiência museal.

Esse protagonismo não surpreende. A história do edifício e o caráter institucional do museu justificam a centralidade de Dom Pedro II, cuja imagem é associada à erudição, à estabilidade política e à ideia de progresso. No entanto, ao longo da visita, torna-se inevitável questionar os efeitos dessa escolha narrativa e os limites que ela impõe à compreensão mais ampla do período histórico representado.

Museus não apenas preservam objetos, mas constroem discursos sobre o passado a partir das demandas e valores do presente. Como observa Marta Anico, o patrimônio deve ser entendido como uma construção contemporânea, produzida por meio de escolhas e negociações simbólicas, atravessadas por relações de poder (ANICO, 2005). Essa perspectiva ajuda a compreender que a narrativa do Museu Imperial não é neutra, mas resultado de uma determinada forma de organizar a memória histórica.

A forte centralidade conferida ao imperador acaba por reduzir a visibilidade de outros sujeitos históricos que também fizeram parte do cotidiano do palácio e da cidade de Petrópolis. Figuras como a imperatriz Teresa Cristina, a princesa Isabel, os trabalhadores do Paço e as populações escravizadas e libertas aparecem de maneira secundária ou implícita. Nesse sentido, confirma-se a ideia de que o patrimônio, ao mesmo tempo em que preserva e valoriza certas versões do passado, contribui para o apagamento de outras. Segundo Anico, o patrimônio é simultaneamente inclusivo e exclusivo, funcionando como um campo de disputa simbólica sobre o que deve ser lembrado e o que pode ser esquecido (ANICO, 2005).

Outro aspecto que se destaca é a apresentação do palácio como um espaço quase idealizado, marcado por uma narrativa harmonizada e pouco atravessada por conflitos sociais. Essa abordagem se aproxima do que a autora define como uma representação nostálgica do passado, frequentemente “saneado, redimido de quaisquer vestígios de conflito” e oferecida ao público como uma experiência estável e coerente (ANICO, 2005, p. 5). Ao priorizar uma leitura centrada nas elites e nos grandes personagens, a exposição acaba por suavizar as tensões que marcaram o período imperial.

Isso não significa negar a relevância histórica de Dom Pedro II ou questionar a importância do Museu Imperial enquanto instituição de preservação. Pelo contrário, trata-se de reconhecer o enorme potencial do museu para ampliar suas narrativas, incorporando outras experiências, vozes e perspectivas que contribuam para uma leitura mais complexa e plural do passado.

A visita técnica, portanto, evidencia que o Museu Imperial é mais do que um espaço de conservação material: é um lugar de produção de sentidos sobre a história. Ao problematizar, neste texto, suas escolhas narrativas, o museu se revela também como um campo fértil para refletir sobre memória, representação e os desafios da museologia contemporânea.



REFERÊNCIAS:

ANICO, Marta. A pós-modernização da cultura: património e museus na contemporaneidade. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 11, n. 23, p. 71–86, jan./jun. 2005.

Disponível: artigo Marta Anico.pdf

Museus Contemporâneos

 

A presente visita técnica aos Museus da Loucura, em Barbacena (MG), e ao Museu Imperial, em Petrópolis (RJ), pela disciplina Museu no Mundo Contemporâneo ministrada pela professora Ana Cristina Audebert Ramos de Oliveira, configurando uma imersão prática nos desafios e transformações, foi uma experiência muito boa possibilitou os conhecimentos teóricos adquiridos em sala de aula. Esse espaço museológico nos permitiu compreender como as questões socias, políticas, culturais rompendo com padrões tradicionais e propondo novas formas de intepretação e interação com o público.   

Museu da Loucura

O Museu da Loucura, localizado em Barbacena, Minas Gerais, ocupa um dos prédios históricos do antigo Hospital Colônia de Barbacena e um local conhecido por graves violações de direitos humanos , e expõe um acervo de peças originais do sanatório, além de traçar uma linha do tempo sobre a  luta  no Brasil.

O Museu foi inaugurado em 16 de agosto de 1996, marcando uma ruptura com o discurso institucional dominante e propondo uma reinterpretação da memória. Segundo Mônica Quiroga (SAA/SE/MS), o museu busca “resgatar a memória da Assistência Psiquiátrica em Minas Gerais”. Foi o primeiro museu com esse tipo de temática no Brasil e tem como objetivo promover reflexões sobre a loucura, com uma abordagem desmistificadora.

                      

                                                                  Museu da Loucura 

                                                                  Museu da Loucura 


Foi a primeira vez que visitei o Museu foi uma experiência marcante e refletiva, apesar do tema ser delicado, pois possibilitou compreender melhor uma parte importante da história da saúde mental no Brasil e refletir sobre a forma como muitas pessoas foram tratadas no passado.

Durante muitos anos, milhares de pessoas foram internadas nesse hospital, muitas vezes sem apresentar qualquer transtorno mental, pessoas pobres, negras, mulheres, homossexuais e indivíduos considerados “indesejáveis” pela sociedade eram enviados para lá, onde viviam em condições desumanas, estima-se que cerca de 60 mil pessoas tenham morrido no hospital em decorrência de maus-tratos, fome, doenças e abandono.

Ao percorrer o museu, é possível observar fotografias, objetos e documentos que revelam o sofrimento vivido pelos internos, esses registros mostram como a loucura foi usada como justificativa para excluir pessoas da convivência social, negando-lhes dignidade, cuidado e direitos básicos. Essa realidade causa impacto, mas também promove reflexão e consciência.

Além de preservar a memória dessas pessoas, o Museu da Loucura cumpre um papel social muito importante, ele contribui para o debate sobre saúde mental e reforça a importância da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial, que defendem o tratamento humanizado e o cuidado em liberdade. O museu mostra que a exclusão não é tratamento e que o respeito deve estar no centro das políticas de saúde mental.

Crânio de paciente não identificado

 Museu da Loucura

 


                                                                 Museu da Loucura

 

 

 

 

 


 

                                                                    Museu Imperial

                                                                                                          

Estátua de D. Pedro II, Museu Imperial

O Museu Imperial, inaugurado em 1896 no artigo Palácio de São Cristóvão representa um marco da monarquia brasileira que permaneceu por séculos como espaços exclusivos da classe mais rica, popularmente conhecido como Palácio Imperial, é um museu histórico temático localizado no centro histórico da cidade de Petrópolis, no estado do Rio de janeiro, no Brasil, está instalado no antigo Palácio de Verão do imperador brasileiro Dom Pedro II. O acervo do museu é constituído por peças ligadas à monarquia brasileira, incluindo mobiliário, documentos, obras de arte e objetos pessoais de integrantes da família imperial.

Em 1822, Dom Pedro I viajou a Vila Rica (atual Ouro Preto), Minas Gerais, para buscar apoio ao movimento da Independência do Brasil, encantou-se com a Mata Atlântica e o clima ameno da região serrana. Hospedou-se na Fazenda do Padre Correia e chegou a fazer uma oferta para comprá-la. Diante da recusa da proprietária, Dom Pedro comprou a Fazenda do Córrego Seco, em 1830, por 20 contos de réis, pensando em transformá-la um dia no Palácio da Concórdia.

A crise política sucessória em Portugal e a insatisfação interna foram determinantes para o seu regresso à terra natal, onde ele viria a morrer sem voltar ao Brasil. A Fazenda do Córrego Seco foi deixada como herança para seu filho, Dom Pedro II, que nela construiria sua residência favorita de verão. A mando de D. Pedro, foi construído o belo prédio neoclássico, onde funciona atualmente o Museu Imperial, teve início em 1845 e foi concluída em 1862. Para dar início à construção, Pedro II assinou um decreto em 16 de março de 1843, criando Petrópolis. Uma grande leva de imigrantes europeus, principalmente alemães, sob o comando do engenheiro e superintendente da Fazenda Imperial, Major Julius Friedrich Koeler, foi incumbida de levantar a cidade, construir o palácio e colonizar a região.

O acervo do museu é constituído por peças ligadas à monarquia brasileira, incluindo mobiliário, documentos, obras de arte e objetos pessoais de integrantes da família imperial. Na coleção de pinturas, destacam-se a "Fala do Trono", de autoria de Pedro Américo, representando Dom Pedro II na abertura da Assembleia Geral, e o último retrato de dom Pedro I, pintado por Simplício Rodrigues de Sá.

Particularmente importantes são as joias imperiais, com a coroa de Dom Pedro II, criada por Carlos Marin especialmente para a sagração e coroação do jovem imperador, então com 15 anos de idade, e a coroa de dom Pedro I, além de diversas outras peças raras e preciosas, como o cofre de bronze dourado e porcelana oferecido pelo rei de França Luís Filipe I a seu filho Francisco Fernando de Orléans, príncipe de Joinville, por ocasião de seu casamento com a princesa dona Francisca; o colar de ouro, esmeraldas e rubis com insígnias do império que pertenceu à imperatriz Dona Leopoldina, e o colar de ametistas da Marquesa de Santos, presente de dom Pedro I. Também se destaca a Pena Dourada usada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888 para assinar a Lei Áurea, que pesa 13 gramas e foi adquirida pelo Museu Imperial, em 2006, por R$ 500 mil; adquirida de Dom Pedro Carlos de Orleans e Bragança, bisneto da princesa.

Durante o Império (1822- 1889) e boa parte da República Inicial, o palácio servia de residência a corte imperial, simbolizando o poder concentrado nas elites, na época, os direitos não eram iguais enquanto a nobreza desfrutava de acesso privilegiado, a maioria da população escravizada ou pobre, era excluída desses tesouros culturais.  O museu, assim, perpetuava desigualdades sociais, da ostentação aristocrática em um Brasil marcado por hierarquias rígidas. Apesar desse passado elitista, o Museu Imperial ganhou importância estratégica na contemporaneidade ao se transformar em um patrimônio público acessível.

Essa transição do elitismo para a inclusão dialoga diretamente com as reflexões de Marta Anico em seu artigo sobre a pós-modernização da cultura, patrimônio e museus na contemporaneidade. No caso do Museu Imperial, essa pós-modernização se manifesta na abertura para amostras temporárias sobre escravidão e resistência popular, rompendo com o viés monárquico original. Assim, o museu revela que na época havia desigualdades sociais, o patrimônio cultural pode ser ressignificado para promover igualdade na sociedade atual, e assim houve a necessidade de museus contemporâneos que contestem hierarquias e ampliem o acesso ao saber.

    “O acelerar dos processos sociais e econômicos, associados a fenómenos como o desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte de massas, juntamente com o crescimento das cidades, o êxodo rural e os grandes fluxos populacionais transnacionais, conduziu a um redimensionamento do mundo, em que espaço e tempo deixam de se configurar como constrangimentos na organização das atividades humanas, pelo que a globalização se encontra, assim, intimamente relacionada com a intensificação e aceleração da compressão do espaço e do tempo na vida económica, social e cultural.” Marta Anico

 

Sala de Música e Baile do Museu Imperial, Museu Imperial

                                        Traje Majestático de Dom Pedro II , Museu Imperial

 

 

    Na era da globalização tecnológica, em que as informações circulam em questão de segundos e as fronteiras tornam-se cada vez mais flexíveis, os museus passam por significativas transformações em seu papel na sociedade contemporânea. Nesse contexto, essas instituições deixam de ser apenas espaços destinados à guarda de objetos históricos e artísticos para se tornarem plataformas de conexão entre culturas, histórias e pessoas de diferentes partes do mundo.

    Essas transformações não diminuem o valor dos museus físicos; ao contrário, ampliam suas possibilidades de atuação. Os museus passam a funcionar como pontos de encontro entre o local e o global, nos quais narrativas específicas ganham alcance e ressonância universal. Por meio de ferramentas tecnológicas, como realidade virtual, exposições digitais e aplicativos educativos, os visitantes têm acesso a experiências mais interativas e imersivas, que enriquecem a compreensão dos acervos e fortalecem o processo educativo.

    “Museus e património configuram-se, desse modo, como um legado da modernidade que procura uma nova legitimação institucional no presente.” Segundo Marta Arnico. Atualmente os museus transformaram em patrimônio sendo acessível ao público em geral, a globalização tecnológica, portanto, não representa um desafio que ameaça a existência dos museus, mas uma oportunidade de reinvenção e fortalecimento de sua função social. Ao incorporarem novas tecnologias, os museus tornam-se mais acessíveis, inclusivos e conectados com as demandas do mundo contemporâneo, alcançando públicos diversos e estimulando o pensamento crítico.       

    Nesse sentido, o Museu da Loucura e o Museu Imperial desempenham um papel fundamental ao resgatar memórias, preservar a história e promover reflexões importantes sobre a sociedade. Ambos demonstram como os museus continuam sendo espaços essenciais para a construção da memória coletiva, o diálogo cultural e a compreensão do passado, reafirmando sua relevância em um mundo cada vez mais globalizado e tecnológico.

  

 

Coroa Dom Pedro I

 

 

                                     


   O quadro “Fala do Trono” de Pedro Américo mostra os trajes imperiais de Dom Pedro II

                                                           Coroa de Dom Pedro II

 

                                                          Salão com moveis da época

                                                    Berço de Ouro de Dom Pedro II

 

 Sala do piado da Imperatriz Teresa Cristina

 

                                                        Sala de jantar Dom Pedro II

 

Portanto essa visita aos museus foi uma experiência boa com muito aprendizagem e contribuiu para entender na prática a disciplina de Museu no Mundo Contemporâneo, e sobre as inovações tecnológicas que vem facilitando o acesso para os visitantes que buscam conhecimento do passado para o presente afim de preservar seu patrimônio histórico e cultural.  

 

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

PATRIMÔNIO E MEMÓRIA: VISITA TÉCNICA AO MUSEU IMPERIAL E A PERSPECTIVA DE UMA GRADUANDA EM HISTÓRIA.

                                                                                                     Petrópolis - Rio de Janeiro


Iniciar esta escrita me faz percorrer por um oceano dentro dos meus próprios pensamentos. Parto de um olhar enquanto graduanda em história, o que foge muito do olhar técnico dos meus colegas graduandos em museologia. Apesar de acreditar que essas áreas ao tratar de narrativas históricas podem se encontrar em algumas vertentes, pude perceber como o olhar do museólogo para criar as narrativas que encontramos nas exposições é essencial, uma vez que para nós, historiadores, poderiam ser vistas apenas com um olhar técnico. 

Iniciar a visita pela reserva técnica, tendo contato com a curadoria e a observação do cuidado com os acervos permitiram compreender o quão vasto e risco é o patrimônio do museu, além de deixar claro a relevância do museólogo, pois de fato, tem cuidados, detalhes que apenas eles são capazes de identificar e cuidar com maestria.

Entre todos os momentos da visita, desde a reserva técnica, a biblioteca, o jardim, deitei-me com cautela sobre dois. Primeiro, a sabedoria e o brilho no olhar do diretor do museu, Maurício Ferreira. O cuidado e consideração que ele teve ao dialogar com a turma, a disposição em explicar sobre a arquitetura do museu, esclarecer dúvidas e compartilhar conhecimentos, reafirmou seu compromisso com a educação museal, a mediação cultural e o mais importante o quanto ele gosta do que faz.

Por fim, o que mais me marcou foi a exposição Fale-me de Pedro – nas minúcias da memória, uma homenagem aos 200 anos de nascimento do imperador Dom Pedro II. Iniciei a visita por essa exposição sem ser mediada e enquanto percorria as salas, as frases com as várias nuances da memória foram me chamando a atenção, dentre elas cito quatro que anotei e pude refletir posteriormente.

A MEMÓRIA É TERRITÓRIO; A MEMÓRIA É EXPERIÊNCIA; A MEMÓRIA É DISPUTADA, A MEMÓRIA É SILENCIADA.


Essas frases martelaram por minha mente. Elas me permitiram fazer uma leitura analítica ao mesmo tempo pessoal do conjunto, reforçaram a compreensão da memória como campo plural e conflituoso.


Também relacionei a exposição com o que nos traz Marta Anico, para a autora os museus não são espaços neutros, neles as memórias criam narrativas e identidades são afirmadas na mesma medida em que o passado ganha diferentes sentidos. Cada narrativa ali exposta pode assumir um papel. No Museu Imperial, em específico nessa exposição apesar dos salões preservarem a apresentação clássica, as obras ali expostas e o contexto narrativo criam um ambiente sensível e reflexivo sobre as facetas do passado.


Confesso que achei a proposta interessante, mas devido ao fato de me encontrar em um lugar como futura historiadora, em seguida posso dizer que como uma crítica da história do Brasil nunca cogitaria trazer as facetas da vida pessoal e intelectual de Dom Pedro II. 


Realizamos a visita pela mesma exposição de modo guiado e já fui compreendendo com um pouco mais de perspicácia o intuito da mesma, a mediação modificou meu olhar e me fez entender ainda mais de perto a importância de um museólogo e seu olhar sobre as obras e contexto histórico ali inserido.


No site do museu é possível encontrar  que a curadoria foi desenvolvida pela historiadora Alessandra Bettencourt Figueiredo Fraguas, especialista em Dom Pedro II, com co-curadoria de Flávia Maria Franchini Ribeiro, coordenadora do setor de educação do Museu Imperial. Lhes digo, cumpriram com excelência a proposta que ali tinha (digo isso com o meu olhar nada museal).






Museu Imperial, patrimônio e disputas contemporâneas de memória: o caso da escultura Mima

 A visita ao Museu Imperial, associada à leitura do artigo “A pós-modernização da cultura: património e museus na contemporaneidade”, de Marta Anico, permite compreender como os museus são espaços atravessados por disputas simbólicas, políticas e éticas, especialmente no que diz respeito à construção das narrativas históricas e à representação do passado no presente.

    Marta Anico argumenta que o patrimônio não deve ser entendido como algo fixo ou neutro, mas como uma construção social permanentemente atualizada. Para a autora, “o património é um modo de produção cultural no presente que tem como recurso o passado” (ANICO, 2005, p. 76). Essa afirmação é central para pensar o Museu Imperial, instituição historicamente associada à valorização da memória da família imperial, mas que hoje se vê desafiada a revisar seus discursos à luz das demandas contemporâneas por inclusão, diversidade e justiça social.

    Nesse sentido, o Museu Imperial busca alinhar-se às discussões contemporâneas da Museologia, especialmente no que se refere às dimensões éticas, à responsabilidade social e à revisão crítica de narrativas historicamente hegemônicas. Em sua exposição de longa duração possui a escultura “Mima”, sendo uma estátua de 1m 90 cm em mármore de Carrara criada no século XIX por Arthur de Gobineau, diplomata francês e amigo de Dom Pedro II, mas também conhecido como o “pai do racismo científico” por suas teorias de supremacia ariana.

Imagem 1: Escultura Mima

Fonte: Google Fotos

    O Museu Imperial decidiu manter coberta a escultura Mima, localizada na Sala dos Diplomatas,  como parte de uma ação voltada à reflexão institucional sobre as formas mais adequadas de apresentação desse objeto controverso ao público. Nesse contexto, foi elaborada a Nota Técnica sobre a escultura, de autoria de Alessandra Bettencourt Figueiredo Fraguas, pesquisadora do Museu Imperial/Ibram/MinC, na qual se propõe a retirada da obra ou, alternativamente, sua exposição acompanhada de contextualização e problematização crítica.

    O documento reconhece que os objetos museológicos devem ser interpretados de forma reflexiva, uma vez que “objetos também são documentos e, por isso, precisam ser ‘lidos a contrapelo’, em suma, problematizados” (FRAGUAS,  2024 p. 3), assumindo que seus significados não são intrínsecos ou neutros, mas construídos a partir das condições sociais, políticas e culturais do presente, em consonância com a perspectiva de Marta Anico acerca do patrimônio como uma produção cultural continuamente atualizada.

Imagem 2: Escultura Coberta

Fonte: Google Imagens 

A decisão de retirar ou ressignificar a obra explicita que os museus não são apenas lugares de conservação, mas também espaços de poder, nos quais se escolhe o que mostrar, como mostrar e quais narrativas legitimar. Como aponta Anico (2005), os processos de patrimonialização são simultaneamente inclusivos e excludentes, pois contribuem para o recordar de certas histórias e para o esquecimento de outras. A ausência, por décadas, de contextualização crítica da escultura Mima” evidencia justamente esses silenciamentos e escolhas.


    A Nota Técnica demonstra um esforço institucional de alinhamento às discussões contemporâneas da Museologia, sobretudo no que se refere à responsabilidade social e à revisão das narrativas hegemônicas. O Museu Imperial reconhece que os objetos museológicos não possuem significados intrínsecos, mas são interpretados a partir das condições sociais, políticas e culturais do presente, exatamente como defende Marta Anico.

    Assim, o caso da escultura Mima” evidencia a transição de um modelo museológico centrado na autoridade do objeto para um modelo que valoriza o debate, a mediação e a multiplicidade de interpretações. O Museu Imperial, ao revisar suas práticas, reafirma seu papel como instituição viva, que dialoga com as transformações sociais e assume a complexidade de lidar com heranças históricas marcadas por desigualdades, violência simbólica e exclusões.

    Em consonância com as reflexões de Anico, percebe-se que enfrentar essas tensões não fragiliza o museu, mas, ao contrário, fortalece sua relevância social, ao transformá-lo em um espaço de reflexão crítica.



Referência

ANICO, Marta. A pós-modernização da cultura: património e museus na contemporaneidade. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 11, n. 23, p. 71–86, jan./jun. 2005. Disponível: MUL106 - artigo Marta Anico.pdf. Acesso em: 19 dez. 2025.

FRAGUAS, Alessandra Bettencourt Figueiredo. Nota técnica: justificativa para a retirada da escultura “Mima”, de autoria de Joseph Arthur de Gobineau, da exposição de longa duração do Museu Imperial. Petrópolis, 2024. Manuscrito institucional. Museu Imperial/Ibram/MinC. Disponível em: Nota Técnica_Mima (1).pdf. Acesso em: 19 dez. 2025.





Entre Nostalgias e Bastidores: uma visita ao Museu Imperial de Petrópolis

 Participar de uma visita técnica ao Museu Imperial de Petrópolis, nos dias 4 e 5 de dezembro, foi como atravessar duas camadas distintas do tempo: a que o museu apresenta ao público, cuidadosamente encenada nos salões do antigo palácio, e a que descobrimos ao entrar nos bastidores, onde a memória é preservada, registrada e também disputada. Essa viagem fez parte da disciplina Museus no Mundo Contemporâneo e, à luz das discussões de Marta Anico (2005), revelou o quanto o Museu Imperial se encontra no cruzamento entre tradição, nostalgia e as transformações que pressionam as instituições patrimoniais no século XXI.

Nossa visita começou pelo que raramente aparece nos cartões-postais: a reserva técnica, espaço em que as museólogas Aline Maller e Ana Luisa Camargo nos receberam com franqueza e generosidade. Ali, entre sistemas de climatização (natural, a partir das janelas), quadros, vestimentas, leques e embalagens estáveis, o acervo parecia menos um conjunto de relíquias e mais um organismo vivo, demandando cuidado constante. As profissionais relataram os desafios financeiros da instituição, os atrasos de manutenção, e a necessidade de conciliar conservação com políticas de acesso — tensões que fazem parte das contradições dos museus contemporâneos, submetidos a exigências crescentes e recursos estreitos.

Em seguida, passamos à biblioteca, onde o bibliotecário nos apresentou obras raras, detalhou a história de algumas aquisições e destacou a diversidade do acervo documental. Foi nesse espaço que se tornou evidente o papel do museu como centro de produção de conhecimento, não apenas como vitrine. A biblioteca amplia o alcance da instituição, garantindo que sua função não se limite à exibição de objetos, mas também ao estudo crítico e contínuo sobre eles.

Frente do Palácio- Arquivo pessoal

Ao entrar na área expositiva principal,tivemos mais um aspecto da conservação: o uso de pantufas por cima dos calçados para preservação do piso de madeira, e para que o fluxo dos visitantes não seja interrompido causando "congestionamentos" das pessoas, não se pode fotografar as exposições.Dito isto, passamos da lógica da preservação para a da representação. Os ambientes reconstituídos do antigo palácio — quartos, salas, corredores e objetos de uso cotidiano da família imperial — criam uma atmosfera de imersão que sustenta a sensação de retorno ao século XIX. Essa estética de autenticidade, construída a partir da materialidade e da fidelidade cenográfica, opera aquilo que Anico identifica como aura modernista: a crença de que objetos raros e ambientes intactos falam por si, dispensando mediações e disputas.

Mas ao privilegiar a visão aristocrática e ordenada da monarquia, a narrativa torna-se limitada. Permanecem ausentes outras presenças históricas que compunham o cotidiano do Império: trabalhadores livres, pessoas escravizadas, mulheres fora da esfera doméstica do palácio, camadas populares que sustentavam a vida urbana de Petrópolis. Esses silenciamentos não são exceções: fazem parte das escolhas que todo discurso patrimonial opera ao transformar fragmentos do passado em memória exibida. Aqui cabe um adendo a estátua que estava encoberta em uma das salas expositivas, cuja ligação com teorias racistas foi suavizada pela cobertura com um lençol. Não há ruptura, há um ajuste delicado, que aponta para mudanças possíveis, mas ainda contidas.

Nas salas finais, após a loja, encontramos a exposição “Fale-me de Pedro – nas minúcias da memória”, que trouxe outro olhar para a narrativa imperial. Ali, documentos pessoais, diários de viagem, objetos íntimos e arquivos textuais permitem refletir sobre Pedro II para além do retrato oficial. A curadoria tensiona a ideia de “lugar de memória” e convida o visitante a pensar como certas lembranças são mobilizadas, construídas e autorizadas institucionalmente.

Essa exposição se aproxima do movimento que Anico identifica como pós-modernização dos museus, no qual o foco deixa de ser a pureza material do objeto e desloca-se para a construção de sentidos. A narrativa não abandona totalmente o imperador, mas permite vê-lo por ângulos menos monumentais. Ainda assim, essa abertura ocorre com cautela. As tensões políticas e sociais que atravessam o período imperial surgem apenas de forma moderada.

A visita revelou um museu que parece viver entre dois tempos, um que celebra e preserva a grande narrativa imperial e outro que reconhece, ainda que timidamente, a necessidade de pluralizar vozes e interpretações. Esse deslocamento é próprio das instituições patrimoniais na contemporaneidade. Como argumenta Anico, museus são espaços em que se negociam identidades, se disputam representações e se encenam versões do passado — ora nostálgicas, ora críticas, ora estratégicas. No caso do Museu Imperial, essas camadas convivem: a cenografia tradicional dos salões se mantém como carro-chefe, enquanto exposições como Fale-me de Pedro sugerem caminhos mais reflexivos.

Ao final, a visita técnica ao Museu Imperial ofereceu muito mais do que um tour pela história do Brasil oitocentista. Foi uma oportunidade de observar como a instituição lida com os desafios de um mundo globalizado, plural e crítico, no qual a preservação já não basta se não vier acompanhada de reflexão e de abertura às complexidades do presente. Entre vitrines, arquivos e bastidores, o museu nos mostrou que o passado não está congelado — ele é construído, disputado e constantemente reconstruído. E é justamente essa consciência que faz da experiência uma visita não apenas ao século XIX, mas também ao futuro dos museus.

Referencias:

MUSEU IMPERIAL. Nova Exposição “Fale-me de Pedro – Nas Minúcias da Memória”. Instituto Brasileiro de Museus-Museu Imperial, 2025. Disponível em: https://museuimperial.museus.gov.br/falemedepedro/. Acesso em: 22 de dezembro,2025.

ANICO, M.  A PÓS-MODERNIZAÇÃO DA CULTURA: PATRIMÓNIO E MUSEUS NA CONTEMPORANEIDADE. Lisboa: , [s.d.]. 

VLOG: Espelho do tempo | Museu no Mundo Contemporâneo

Visitar um museu é muito mais do que apenas atravessar salas expositivas e observar objetos preservados. 

É entrar em contato com narrativas construídas, com escolhas políticas e simbólicas sobre o que deve ser lembrado, esquecido ou silenciado. 

Entrar em um museu é, muitas vezes, entrar em um tempo que não é o nosso.

E, atualmente, vivemos num tempo fragmentado, em que as certezas escorrem pelos dedos e que o passado, muitas vezes, aparece como abrigo.

Entre o Museu da Loucura e o Museu Imperial não há certo ou errado. Há tensão, contraste e complexidade.

Eles nos mostram que a memória não é neutra, que o patrimônio não é apenas herança, mas escolha. Escolha de narrar, de exibir, de esconder, de emocionar.

Talvez o papel do museu no mundo contemporâneo seja justamente esse: nos lembrar que o passado não está distante, nem resolvido. Ele vive conosco, molda nossos afetos, nossas ausências e nossas perguntas.

Lembrar também é um gesto político e, em tempos tão rápidos, parar para se envolver pela memória é um ato de resistência.



 

Demandas contemporâneas no Museu da Loucura e no Museu Imperial.


Quinta feira, dia 4 de dezembro de 2025 as 7:30am, partimos da Escola de Direito, Turismo e Museologia (EDTM) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) rumo a Petrópolis no estado do Rio de Janeiro, com o objetivo de realizar uma visita técnica no Museu Imperial. Mas antes, como em parte do trajeto a ser percorrido estava previsto a passagem pela cidade de Barbacena-MG, foi decidido fazer uma visita rápida ao Museu da Loucura.


O Museu da Loucura, como nos tempos atuais é conhecido, foi um antigo hospital psiquiátrico fundado em 1903 na cidade de Barbacena, Minas Gerais, cujo nome anterior era Hospital Colônia. O atual museu foi criado em 1996, após anos antes ser relatado inúmeros casos e denúncias de violação dos direitos humanos e de práticas desumanas de tratamento de doenças mentais, chegando a ter sua história conhecida como o Holocausto Brasileiro. Quando inaugurado, o museu foi considerado um avanço no processo de humanização do Centro hospitalar psiquiátrico de Barbacena (CHPB) e hoje é referência histórica sobre o primeiro hospital psiquiátrico de Minas Gerais.


A exposição contida no museu é no mínimo impactante, aponta os caminhos e descaminhos percorridos na área da psiquiatria ao longo da história e conta com o objetivo principal de resgatar a história do primeiro hospital psiquiátrico de Minas Gerais. Nota-se que questões relacionadas à psicologia, psiquiatria e saúde mental são assuntos que estão em pauta constante na sociedade atual e vem ganhando cada vez mais relevância quando se trata de qualidade de vida e saúde, mas claramente poderia ter essa demanda contemporânea melhor abordada no museu, sendo tratada de forma menos espetaculosa. O acervo é composto por textos, fotografias da época, onde foram relatados o descaso no qual os pacientes eram expostos, vídeos, documentos, equipamentos, objetos e instrumentação cirúrgica - de tortura como são reconhecidos hoje - que relatam a história do tratamento ao portador de sofrimento mental. O hospital Colônia se tornou um depósito de pessoas excluídas da sociedade, a maioria sequer possuía problemas mentais, mas muitos eram escondidos ali pela família, rejeitados, vítimas de abusos, problemas com drogas ou que incomodavam de alguma maneira a sociedade intolerante.


No dia seguinte, após a chegada na cidade de Petrópolis-RJ na noite anterior, nos dirigimos ao ponto de encontro marcado no jardim da entrada principal do Museu Imperial às 9:30am. O museu está localizado no antigo Palácio Imperial, uma construção em estilo neoclássico, residência de verão com função de casa de campo de D. Pedro II, tendo início da construção em 1845 e dado por concluído em 1864. Foi construído com recursos particulares do Imperador, nas terras da Fazenda do Córrego Seco, herdadas de seu pai, D. Pedro I que sonhou ali construir seu Palácio de Verão, o Palácio da Concórdia. 


Primeiramente nos dirigimos à reserva técnica do museu, onde fomos recebidos pela equipe para uma conversa e exposição a respeito do tratamento que toda coleção passa para ter as melhores condições de preservação mantidas. Igualmente foi o processo de reconhecimento da biblioteca do museu, onde tivemos contato com vários exemplares de extrema importância para a história do nosso país e que retrata desde o período de exploração e invasão colonial, até o período do Brasil Império. 


Como terceira parte da programação de visita, fomos conhecer a exposição do Museu Imperial. Eles adotam medidas cautelares de preservação do objeto mas também do próprio edifício, não é permitido fotografar e filmar dentro de museu e logo em sua entrada são disponibilizadas pantufas para usar nos pés e preservar o piso em madeira da construção. A exposição é constituída por peças ligadas à monarquia brasileira que contém desde obras artísticas, mobiliário, objetos do cotidiano e também objetos pessoais utilizados por aquelas pessoas. 


Dias antes da nossa visita havia sido inaugurado em comemorações pelos 200 anos de nascimento de Dom Pedro de Alcântara, posteriormente Dom Pedro II, a exposição “Fale-me de Pedro – nas minúcias da memória”,  tivemos a oportunidade de realizar uma visita guiada pela exposição com a equipe que a montou, ela reunia “... objetos e documentos inéditos para reconstituir a trajetória do imperador a partir das múltiplas camadas da memória."(museuimperial.museus.gov.br, 2025).


A experiência da visita ao museu foi de extrema importância para reconhecimento da instituição museal, entender as diretrizes de funcionamento, a sua tipologia e realizar o exercício crítico de analisar o museu e como ele lida com as demandas sociais contemporâneas que se configuram em constante movimento. O Museu Imperial tem como missão “preservar, pesquisar e comunicar a memória e a história do período imperial brasileiro, assim como da cidade de Petrópolis.”(museuimperial.museus.gov.br/carta-de-servicos-ao-cidadao/,2025). 

Entretanto, nota-se que como evidenciado pela autora Marta Anico (2005) em sua obra A pós-modernização da cultura: patrimônio e museu na contemporaneidade, “Não é pois, de estranhar que estes critérios de autenticidade, raridade e genialidade se tenham tornado cada vez mais problemáticos, à medida que surgiram novos entendimentos do conceito de cultura, enquanto sistema de significação, bem como dos conceitos de patrimônio e da própria história…”. (ANICO, 2005, p.9)


Ou seja, a medida que repensamos a forma de fazer museologia, a maneira e o que escolhemos para preservar da história como patrimônio da sociedade, fica evidente que o critério de autenticidade tem sido de forma progressiva e substituída pela noção de representatividade, demandando cada vez mais das instituições museais que incluam não somente uma, mas diversas histórias em seus espaços, e que representam não somente uma parcela da população, mas os atores sociais como um todo. Apesar das limitações impostas pela tipologia e missão do Museu Imperial, ficou explícito que para lidar com as demandas contemporâneas o museu precisa ir além da vida da monarquia e buscar ferramentas, através de outra ótica, para incluir a sociedade da época e representar a cultura de maneira geral.


Referências: