a tradição das visitas técnicas

No inverno de julho de 1945, quando as moças e senhoras costumavam usar chapéus em roupas de passeio e os homens trajavam ternos à rua, a turma do Curso de Museus do Museu Histórico Nacional/RJ excursionava para a cidade de Ouro Preto em Minas Gerais. O grupo de 19 pessoas veio de trem numa viagem que durou 16 horas. Durante a permanência de uma semana visitaram também as cidades de Mariana, Congonhas do Campo e o então arraial de Ouro Branco.

Passados 68 anos, o Curso de Museologia da UFOP mantém a tradição das visitas técnicas iniciada pelo Curso de Museus. Todo semestre o DEMUL se reúne para discutir e aprovar os roteiros de viagens das disciplinas que possuem visitas previstas em suas ementas. Em geral, os estudantes organizam a hospedagem, na busca de conforto, higiene, bom preço e localização. Os professores, claro, responsabilizam-se pela elaboração dos roteiros detalhados, agendamentos, relatórios posteriores, avaliações e ainda por todo o aspecto operacional de deslocamento.

Em meio à transitoriedade do mundo contemporâneo as visitas técnicas permanecem uma boa tradição que nos orgulhamos em manter devido à sua importância como recurso pedagógico.

Este blog cumpre, pois o objetivo final de avaliar os estudantes em suas visitas aos museus. Suas postagens são registros, narrativas e leituras da experiência vivida, um diário coletivo, dinâmico, crítico, quiçá, divertido.

Tenham todos uma boa leitura e uma boa viagem!

Prof.ª Ana Audebert


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Bicho de sete cabeças

Andando pelos espaços do Museu da Loucura em Barbacena, antigo Hospital Colônia, sentimos o peso que aqueles cubículos carregam: os sussurros, o ranger, o olhar angustiado, a ausência no crânio desdentado, a presença no uniforme azulão. Em cada segundo lá a música que aqui precede ecoava na minha mente. Vidas ceifadas, memórias lobotomizadas, mortes são números... "Não tem ninguém que merece, não tem coração que esquece, bicho de sete cabeças." 

"Não dá pé não tem pé nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem nem talvez ter feito
O que você me fez desapareça
Cresça e desapareça
Não tem dó no peito
Não tem jeito
Não tem coração que esqueça
Não tem ninguém que mereça
Não tem pé não tem cabeça
Não dá pé não é direito
Não foi nada eu não fiz nada disso
E você fez um bicho de sete cabeças
Bicho de sete cabeças
Bicho de sete cabeças
Bicho de sete cabeças
Bicho de sete cabeças
Não dá pé não tem pé nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem nem talvez ter feito
O que você me fez desapareça
Bicho de sete cabeças
Bicho de sete cabeças
Bicho de sete cabeças" 
Música: Bicho de Sete Cabeças II 
Compositores: Zé Ramalho/Geraldo Azevedo/Renato Rocha





sexta-feira, 29 de novembro de 2019

As Mulheres no Museu da Loucura


Autoras: Laura Elisa, Lunara Silva e Milla Santo

Foto feita por Milla Santo - Nov/2019


O Museu da Loucura em Barbacena, hoje relata um pouco do que foi o Hospital Colônia, espaço esse que entrou em funcionamento em 1903 e encerrou as atividades somente nos anos de 1980. Durante esse período esse ambiente “hospitalar” representava um espaço onde as pessoas que fugiam dos “padrões” instaurados na época, eram internadas contra à vontade. Somente 30% das internações apresentavam algum transtorno psiquiátrico, portanto os outros 70% eram em sua maioria negros, mulheres, homossexuais, alcoólatras, mendigos. Nas primeiras imagens que se busca pelas mídias sociais e no próprio museu se destaca a presença de negros em sua maioria, e mulheres. O papel da mulher nesses períodos era bem claro, submissão a figura patriarcal, nesse sentido Arbex 1(2013, p. 30).
Muitas ignoradas eram filhas de fazendeiros as quais haviam perdido a virgindade ou adotavam comportamento considerado inadequado para um Brasil, à época, dominado por coronéis e latifundiários. Esposas trocadas por amantes acabavam silenciadas pela internação no Colônia. Havia também prostitutas, a maioria vinda de São João del-Rei, enviadas para o pavilhão feminino Arthur Bernardes após cortarem com gilete os homens com quem haviam se deitado, mas que se recusavam a pagar pelo programa.
A citação acima é um exemplo da discriminação sofridas só pelo fato de ser mulher, não havia poder de escolha, nem sobre o próprio corpo e as razões para as internações de conotação completamente fútil, para resguardo dos homens. Ação que, acometeria para estas mulheres excluídas da sociedade, danos irreparáveis a sua sanidade, sendo levadas a humilhação, estupro, tratamentos de eletrochoques, ações desumanizantes.
Durante a visita ao museu, principalmente observando as diversas maneiras que as  mulheres estão sendo retratadas, pode-se perceber como é recorrente a figura da mulher nua ou seminua, deixando-as expostas, a diversos tipos de violências, como por exemplo os abusos sexuais, assunto falado durante a visita por um dos funcionários da instituição. Segundo ele, os abusos ocorriam inclusive por funcionários, assim como por outros internos, fato que era possibilitado por superlotação.
É importante observarmos a forma como as mulheres estão sendo representadas dentro do museu, seus corpos e sua dor estão expostos no Museu da Loucura, através de imagens, de versos e objetos:






 1-ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro – 1. ed. – São Paulo: Geração Editorial, 2013.

Museu da Loucura: apaguem as diferenças, escondam os indesejáveis


A visita ao Museu da Loucura em Barbacena MG provoca algumas reflexões e impressões, inclusive sobre o corpo. Em alguns momentos, sentimos no peito uma parte da dor das pessoas ali estiveram.

A experiência imersiva na Sala de Lobotomia é um exemplo da força da expressão dessa dor: trata-se de um cubículo, com som ambiente de um coração pulsando. A lobotomia "apagará" esse coração, entendido como metáfora da subjetividade criativa e pulsante. "Tem gente que não bate bem do coração" usuário de saúde mental do CAPS ( Centro de Atenção Psicossocial) de Mariana MG.
Entrada da Sala de Lobotomia
Interior da Sala de Lobotomia
 e instrumental cirúrgico.


A internação no Hospital Colônia de Barbacena, não somente a submissão ao tratamento de lobotomia, apagou vidas, desejos, anseios; abortou  possíveis artistas, escritores,cientistas; relegou ao não-ser todo tipo de 'indesejável". A mulher autônoma, o sonhador, o 'vagabundo'. Vidas interrompidas, que logo murchariam em desalento e morte. 

Por outro lado, alguns tiveram um pouco de espaço de expressão, apesar da maioria ter ócio improdutivo e vegetativo.

Músicas, poemas, brinquedos foram criados. A força pulsante do desejo daquelas pessoas foi expressa e uma pequena amostra está lá, para nós nós lembrar da potência da vida. 

Brinquedos feitos por internos.

Poesias.



quinta-feira, 28 de novembro de 2019


Ficha técnica:

Texto e Voz- Áurea Leão
Imagens- Áurea Leão
Edição- Paula Isabella

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Holocausto Brasileiro - A história por traz da "loucura"

"Texto com base a partir da experiência e material analisado sobre o Museu da Loucura- Barbacena MG" (DEMUL/UFOP)


Fonte:Daniela Arbex
1) Os loucos somos nós, Daniela Arbex devolve nome, historia e identidade àqueles que até então eram registrados como "ignorados de tal". Eram um não ser. Pela narrativa eles retornaram, como Maria de Jesus, internada porque se sentia triste; Antonio da Silva, porque era epilético ou ainda Antonio Gomes da Silva sem diagnóstico, que vinte e um, dos seus trinta e quatro anos de internação mudo, porque ninguém se lembrou de perguntar  se ele falava.São Sobreviventes de um holocausto que atravessou a maior parte do século XX, vivido na colônia, como era chamado o maior hospício do Brasil, na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Como pessoas, não mais como corpos sem palavras, aqueles que foram chamados de "doidos", denunciam a loucura dos "normais". As palavras sofrem com a banalização . Quando abusados pelo nosso despudor, são roubados em seus sentidos. Holocausto é uma palavra assim: Em geral, soa como exagero quando aplicado a algo além de assassinato em massa de judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Neste livro porém , seu uso é preciso. Terrivelmente preciso. Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Tinham sido em sua maioria enfiadas nos vagões de um trem e internadas à força. Quando elas chegavam à Colônia, suas cabeças eram raspadas e as roupas arrancadas. Perderam seus nomes e foram rebatizadas pelos funcionários. Começaram e terminaram ali, cerca de 70%, não tinham um diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, pessoas que se rebelavam, gente que se tornava incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas, violentadas por seus patrões, eram esposas que eram confinadas para que os maridos pudesse morar com as amantes, eram filhas de fazendeiros que perdiam a virgindade antes do casamento. A parada na Estação Bias Fores era a última da longa viagem de trem que cortava o interior do país. Os deserdados sociais chegavam a Barbacena de vários cantos do Brasil, semelhando durante a Segunda Guerra Mundial,quando os judeus chegavam  para os campos de concentração nazista de Auschwitz. A expressão "trem de doido" surgiu pelo escritor Guimarães Rosa e foi incorporada ao vocabulário dos mineiros para definir algo positivo, mas infelizmente marcava o inicio de uma viagem sem volta ao inferno, Os recém chegados à estação da colônia, após a sessão de desinfecção. o grupo recebia o famoso "azulão", como eram conhecidos os uniformes dos internos. Fome e sede eram permanentes no local onde o esgoto que cortava os pavilhões, serviam muitas vezes como fonte de água. Nem todos tinha estômago para se alimentarem de bichos, mas os anos na Colônia, consumiam os últimos vestígios de humanidade nos pacientes. Além da alimentação racionada no intervalo entre almoço e jantar, servidos ao meio dia e às 05 horas da tarde, os pacientes não comiam mais nada. Construído junto com o Hospital Colônia no inicio do século XX, o Cemitério da Paz, cuja área pertence à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, está desativado desde o final da década de 80. O psiquiatra, Jairo Toledo, que  respondeu pela direção do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena até março de 2013, explicou que após os cerca de 60 mil mortos enterrados ali,o terreno está saturado. 
]
Fonte:Daniela Arbex
                                                          Fonte :Google imagens 
Documento do livro de registros da colônia confirmam a venda de peças anatômicas para a Universidade Federal de Minas Gerais, que adquiriu em uma década 543 corpos, para aulas de anatomia. Já a Universidade Federal de Juiz de Fora, foi responsável pela compra de 67 cadáveres entre fevereiro de 1970 e maio de 1972. Documentos dos Hospital mostram que na remessa feita em março de 1970, os corpos transformados como indigentes foram negociados por 50 cruzeiros cada um. O fornecimento de peças dobrava nos meses de inverno, época que falecia mais na Colônia . Se a procura era baixa, os mortos eram dissolvidos em ácido.
Nise da Silveira, foi a mulher que revolucionou o tratamento psiquiátrico do Brasil,. Ela enxergou a riqueza dos seres humanos e lhes deu a dignidade. Em terras de sanidade desenfreadas que permite a loucura contabilizar relatos selvagens.  A falta de utopia com um racionalismo paralisante de sonhar ou arrepender. Essa mulher se rebelou contra a psiquiatria de violentos choques,camisas de força e isolamento,  para propor um tratamento humanizado e reabilitação dos pacientes. Nise nos fala de uma atualidade em que a loucura é estigmatizada e polarizada, e cobramos de nós mesmos o tempo todo, como se não pudéssemos falhar. Essa mulher agigantou a humanidade ao cuidar de brasileiros rejeitados de uma história. O que retrata a loucura, é encontrar um pouco de nós mesmos e a própria existência. Nise da Silveira soube transformar o conhecimento do que é a loucura. Em 1944, Nise passou a trabalhar no Hospital Pedro II antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Rio de Janeiro. Como se recusou a fazer o tratamento da época, recebeu como punição, a transferência para o Setor de Terapia Ocupacional do Pedro II. Nise apontou falhas na Psiquiatria em seu contexto e suas soluções dando sentido ao tratamento e as relações entre o psiquiatra e paciente É nesse momento que Nise revoluciona o tratamento das doenças mentais.Em vez de permitir que seus pacientes fizessem serviços de limpeza ou levassem surras, práticas bastante corriqueiras até então, oferece a eles pincéis, tintas e telas em branco. Nos seus 94 anos de vida, publicou dez livros e vários artigos científicos.
                                        Fonte :Google imagens

Durante o decorrer da historia pouco se dá importância à questão do "Insano". Durante a idade média, tal problema era visto simplesmente como um erro, uma falha da razão. Os loucos vagavam livre pela sociedade. No renascimento, a loucura era vista como formas da razão. Na idade clássica entre os períodos entre o século XVI e XVII, identificou como algo que nos leva ao erro, e  o maior enfoque de exclusão seria dado, segundo Foucault, ao leproso.  Na idade clássica e  o advento da idade moderna, com o surgimento da psiquiatria e as mistificações da ciência, a loucura ganhava, por meio de discursos, a legitimidade  como doença. Assim, considerando certos domínios científicos , a loucura passaria a ser criminosa, perigosa, talvez "contagiosa", algo que nos leva ao erro. Uma doença à sociedade Desta forma ,no fim da idade clássica,  por meio do pensamento de Michel Foucault, o discurso sobre a loucura,  como formas de poder, isolamento ou punição, no intuito de mostrar tanto o saber médico, quanto a internação psiquiátrica, tornaram-se poderes institucionais da época. E como toda doença deve-se fazer existir uma cura. No século XVIII, o fenômeno de exclusão para os loucos se torna evidente com as internações e os hospícios se transformaram em fins terapêuticos e penitenciários.Desta forma, cabe nos perguntarmos como surgiu a necessidade de aprisionamento de um louco? É sob a influência do modo de internamento tal como ele se constituiu no século XVIII, que a doença se isolou uma certa medida de seu contexto médico e num espaço moral de exclusão se integrou ao ponto de vista institucional, num fenômeno bastante complexo do qual a medicina demorará a se apropriar do que é a "loucura".

Fonte :Google imagens


6) Portanto,o Museu da Loucura, remete à uma historia triste de torturas físicas e psicológicas , abandonos e crueldade à pessoas vindas de toda a Minas Gerais,  feitos pelo corpo clínico e administrativo do Hospital Colônia. Nessa trajetória, desde a sua fundação, foram realizados diversos experimentos de tratamentos como eletro choques que muitas vezes levava à morte de pacientes, que nunca tiveram diagnósticos precisos na causa do óbito.  Morriam-se também pela angústia, maus tratos, fome e frio, e pelo esquecimento com o decorrer do tempo, por parte de familiares. Perdia-se a identidade, assim que o trem chegava à estação Bias Fortes. Esse cenário rendeu comparações com os campos de concentrações nazistas Os pacientes eram então separados, por idade, sexo e características físicas. Com o passar dos anos, o descaso e erros de diagnósticos na área médica do Hospital Colônia, promoveu a superlotação do espaço onde praticamente se tornou um depósito de pessoas internadas por tristeza, gays, alcoólatras, mães solteiras, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos. Com capacidade para tratar aproximadamente 200 internos, chegou a ter 5 mil internos, em completa desumanização em seus complexos, com alimentação escassa, esgoto a céu aberto onde os internos se banhavam e bebiam água, pois também não tinham acesso à água potável.  Com isso, também era alta a taxa de mortalidade. Com excesso de sepultamento no cemitério anexo ao hospital Colônia, a venda da cadáveres de paciente internos para faculdades de medicinas se tornou uma rotina à partir dos anos 60, atingindo seu auge em 71, conforme registros da contabilidade do Hospital Colônia.    Esse triste episódio no tratamento psiquiátrico de nossa história teve o fim nos anos 80. Em 1996 um do seus pavilhões foi transformado em museu mantendo viva essa lamentável memória.

A crônica de um dia de torpor

Era um lugar que me interessava, essas coisas da mente humana, de como eram tratadas as pessoas que não tinham culpa de um diagnostico e não sabiam o que aconteciam com suas crises, a mente humana as vezes nos prega peças, pânicos, falta de empatia pra viver e pessoalmente , isso é uma incógnita, por isso o meu fascínio, já havia lido sobre ele, assistido documentários, e fui descobrindo coisas mais obscuras, coisas desumanas que aquele lugar viveu, mas meu interesse não minguou, posso dizer que foi acrescentado um outro tópico curioso, porém nunca estive lá, até que me surgiu a oportunidade de ir com meus colegas de sala de aula, sairíamos de Ouro Preto bem cedo.
O dia chegou, foi uma manhã virada, tinha virado a madrugada, junto a insônia que insiste em aparecer, mas eu estava ansiosa, como sempre, defino como meu estado crônico, pois eu queria ver, queria sentir aquele lugar que viveu tanta coisa e agora era museu, oque mais uma estudante de museologia queria!? A ida foi ótima, um amigo querido me deu um Dramin, então a fadiga que me importunava passou, nunca fui uma admiradora de visitas técnicas, é muita correria, muita gente junto, minha alma é mais solitária e para poucos, mas essa valia a pena, quando chegamos comecei a sentir uma energia densa, acredito muito nisso, na energia das coisas, lugares, pessoas e tudo que esse infinito universo proporciona, comecei a sentir um pouco de falta de ar, acabei esquecendo de mencionar que sou bem sensitiva, meu pai de santo e os curadores do Intituto de Pranaterapia afirmavam, tanto que naquela manhã tampei meu umbigo, para não absorver energias que iriam me sugar, mas eu estava curiosa, queria entrar, queria ver, sentir, não queria que fosse uma experiência técnica, ficar observando a iluminação, as vitrines, se era acessível, eu queria ser sensor, sentir o que aquela instituição queria mostrar.
Comecei minha experiência um pouco frustrada, na minha cabeça se passava - poxa, mais eles podiam explorar mais o sensorial, eles tinham tanto material e o recorte museológico dá tantas margens pra isso, algumas coisas impactavam muito, o próprio acervo, aparelhos de lobotomia e suas variações, me faziam pensar como uma pessoa recebia a notícia que sofreria aquele procedimento, no outro canto do mesmo módulo uma plotagem com alguns rostos, tentei entender o que eles estavam expressando, mas eu sabia que nunca entenderia, o módulo do trem de Barbacena estava mais denso, tive uma sensação mais forte mesmo sendo um módulo onde não abrange a obscuridade daquela história, um colega contou sobre sentir isso também na mesma sala, quando estava me preparando para subir no segundo pavimento, me deparei com um ser humano enjaulado, era tão perturbador que comecei a subir mais rápido, pra ver melhor que instalação era aquela, mas eu não conseguia absorver, era triste, a pessoa que ali estava eternizada, estava tão destroçada que não reconhecia se era mulher ou homem, se ela estava chorando ou estava desesperada ou os dois provavelmente, minha decepção estava começando a diminuir, eu queria sensores pra ter a experiência que tive com aquele ser humano enjaulado, mas os módulos seguiram o mesmo padrão, a última sala que entrei tinham 4 totens com áudios dispersos de relatos, gemidos, canções cantadas, mas eu já havia as escutado nos documentários assistidos, pensei que eles sem um fone para cada atrapalhou, pq os sons eram soltos, mas depois compreendi, devia ser esse o barulho de lá, uns gemendo de dor, de tristeza ou tantos outros sentimentos que temos, uns tentando manter a sanidade cantando ou conversando, era esse o som, porém claro que com menos intensidade, fiquei imaginando esses sons 4 vezes mais altos, acho que esse pode ter sido a realidade, nessa hora eu precisava de um ar, precisava sair dali, me sentei junto a alguns colegas que relataram que sentiam que ali já viveu muito sofrimento, de repente, de forma muito carinhosa um cachorrinho se aproximou, com muita doçura começou a tentar me abraçar e eu fui no jogo dele, quis retribuir o amor, imaginei será que ele vive lá? animais são seres iluminados, será que ele vivia ali com uma missão de aliviar a densa energia, mas uma coisa não saia da minha cabeça, porque holocausto estava tão no escuro daquela comunicação museal, estava um pouco velado essa questão,  particularmente isso seria o auge do fechamento pra esse museu, essa história precisa tanto ser divulgada, eu não conhecia, também vindo do sudeste do Mato Grosso, lá as pessoas não costumam questionar, esse é um dos motivos que não gosto da minha região.
Depois de receber e dar muito carinho, fomos chamados para uma breve fala, no auditório, onde um funcionário falava do espaço museal, minha cabeça sempre questionando - será que ele não vai falar do holocausto?!, fomos embora, eu ainda com o torpor de um sono regado ao movimento do ônibus, voltei dormindo, eu precisava repor minhas energias e com uma leve decepção, aquela exposição não representou a dor, as terríveis lembranças que aquelas pessoas tinham, foi tudo velado mas sentido ao mesmo tempo, mas deve haver um motivo, eu só não sei, foi apenas um pensamento de uma museologa em formação, onde o mundo é ideal e a vida não é real.